O mercado global de hidromel, uma bebida milenar obtida através da fermentação do mel, movimentou cerca de US$ 655 milhões em 2025 e deve alcançar US$ 1,75 bilhão até 2034, segundo dados da consultoria Fortune Business Insights. No Brasil, embora o país seja um grande produtor de mel, o setor de bebidas fermentadas ainda tenta romper a barreira da informalidade e esbarra em entraves regulatórios complexos para conseguir ganhar escala no varejo físico.

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O exemplo prático deste cenário é a Philip Mead, que, segundo a própria empresa, lidera hoje o volume de fabricação nacional do produto. O negócio começou em 2016 como um hobby no quintal do engenheiro Philipe Mandaji Piaia, que diante da dificuldade de encontrar a bebida no mercado nacional, decidiu produzir os seus próprios lotes.

Depois de observar a boa aceitação do mel brasileiro em viagens de trabalho à Europa, Piaia identificou viabilidade comercial em aplicar técnicas de enologia ao insumo nacional. A marca foi formalizada em 2018 e, no ano seguinte, o fundador e a mulher deixaram os seus empregos corporativos para se dedicarem integralmente à operação. Três meses depois, contudo, a pandemia de Covid-19 obrigou a empresa a pivotar o modelo de negócio centrado em feiras e eventos presenciais.

"O mercado fechou e passamos a operar apenas no ambiente online," conta o fundador a Oeste. "Estabelecemos uma parceria de mídia com o grupo Flow e direcionamos a operação para o e-commerce," explica Piaia, que agora tem como sócios os membros do podcast. Focada na venda direta ao consumidor (B2C), a empresa atingiu picos de faturamento em 2023 com uma média de 4 mil a 6 mil litros mensais processados em Sorocaba (SP) e um portfólio que soma 26 medalhas internacionais.

A barreira da rotulagem federal

Apesar dos números de produção, a expansão para os canais de atacado e grandes redes de supermercados (B2B) esbarra na rigidez das normas do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Embora o órgão tenha consolidado novas regras de bebidas, as diretrizes impõem restrições severas à categoria.

A legislação proíbe o uso de termos comerciais comuns para o mercado de produtos finos, como "premium", "artesanal", "natural" ou "reserva" nos rótulos de hidromel. Além disso, as variações do produto que recebem frutas ou cacau perdem o direito de exibir a denominação de "Hidromel" no painel principal da garrafa, devendo ser registradas obrigatoriamente como "bebida alcoólica mista".

Apicultor segurando um o quadro de favo de mel usado na produção do material | Foto: Shutterstock

Outro fator crítico envolve o veto ao uso de mel de abelhas nativas sem ferrão (como Jataí e Mandaçaia). Apesar de apresentarem uma acidez diferenciada e alto valor de mercado, esses insumos não têm autorização do Mapa para processamento em escala agroindustrial de hidromel.

"É uma grande contradição da nossa política agropecuária," afirma o produtor. "Temos produtores de abelhas nativas no Pará que exportam mel de altíssimo valor para indústrias na Alemanha para ser processado lá, mas nós, dentro do Brasil, não temos permissão legal para gerar valor sobre esse patrimônio nacional".

Segundo dados do governo do Pará divulgados em 2026, por meio da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas), o setor do mel paraense gera uma receita de mais de R$ 16 milhões, com produção média de aproximadamente 750 toneladas.

Padronização industrial

O controle analítico rígido é o que diferencia o formato industrial da produção caseira, uma vez que o mel muda de perfil conforme o clima e as floradas de cada safra. Para estabilizar o dulçor e o sabor, a marca utiliza uma combinação de três tipos de méis: laranjeira, silvestre e eucalipto. "O mel de laranjeira contribui com a acidez cítrica necessária para balancear o paladar", explica. "Como ele tem coloração clara, os méis silvestre e de eucalipto são integrados para conferir corpo e o tom dourado característico."

A complexidade desses parâmetros foi alvo de um estudo recente com a participação do Centro Tecnológico Agropecuário da Bahia (Cetab), publicado nos Anais da Academia Brasileira de Ciências. Ao mapear amostras de hidromel de São Paulo e da Bahia, a pesquisa demonstrou que falhas no controle do pH (acidez) e no tempo de armazenamento afetam diretamente a estabilidade aromática e os compostos voláteis da bebida, podendo comprometer a qualidade sensorial do produto antes mesmo do fim do prazo de validade comercial.

De olho no mercado físico, a Philip Mead passa agora por uma reestruturação do seu modelo de distribuição, diminuindo a dependência das vendas digitais para tentar ingressar de forma robusta em restaurantes e redes varejistas. "O objetivo atual é consolidar a bebida no varejo físico e demonstrar a viabilidade de industrializar e agregar valor ao mel diretamente na origem," conclui Piaia.

O horizonte da Reforma Tributária

Além dos gargalos de distribuição e de rotulagem, o planejamento de longo prazo do setor enfrenta o cenário de incertezas trazido pela Reforma Tributária. Com previsão de início para 2027, o Imposto Seletivo, apelidado de "Imposto do Pecado", visa sobretaxar produtos considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente, incluindo as bebidas alcoólicas. Embora o Ministério da Fazenda ainda trabalhe nos ajustes técnicos para propor as alíquotas até o fim deste ano, a falta de definições claras sobre os percentuais dificulta projeções de custo e investimentos.

Atualmente, a carga tributária sobre bebidas alcoólicas no Brasil já consome de 40% a mais de 80% do preço final do produto. Produtores nacionais alertam que uma nova pressão fiscal poderá esmagar as margens de lucro, forçar repasses nos preços ao consumidor e desestimular contratações na agroindústria.

"Estamos a poucos meses de mudanças estruturais e ninguém sabe como vai funcionar a operação", afirma Piaia. Para mitigar esses impactos, a Philip Mead monitora o cenário técnico para garantir que o hidromel mantenha a competitividade frente aos concorrentes tradicionais do mercado de bebidas finas. "Para quem é pequeno, prever a manutenção do negócio no escuro é um desafio hercúleo", pontua o empresário.

Leia também: "Campo em crise", texto de Artur Piva e Eliziário Goulart Rocha publicado na Edição 326 da Revista Oeste

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Fonte: Revista Oeste · Por Erich Mafra