O documentário Nós, dirigido pelo jornalista e produtor Gustavo Chaves Lopes, será pré-lançado em 15 de julho, em Brasília. A produção foi gravada em cinco países da Europa e traça um paralelo entre regimes totalitários do século 20 e o cenário político atual do Brasil.
Em entrevista a Oeste, Lopes afirmou que a ideia do documentário surgiu quando ele era secretário nacional do Audiovisual no governo Bolsonaro. Segundo ele, a experiência na pasta mostrou a predominância de projetos culturais de esquerda entre as propostas analisadas pela Secretaria.
“Eu via que mesmo durante o governo Bolsonaro, 90% daqueles projetos tinham um viés de esquerda”, disse. “Os outros 10% também não eram direita, eram projetos neutros do ponto de vista político.”
A obra parte da pergunta sobre “o que separa uma democracia funcional de um regime de controle absoluto”. O filme trata de censura, perseguição política, centralização de poder, engenharia social, linguagem controlada e restrição gradual de liberdades individuais.
“O maior erro das pessoas é achar que o totalitarismo é um evento estático no passado, ele é um processo vivo”, afirma Lopes. “Viajamos para onde a história aconteceu para mostrar os sintomas. Quando você olha para o que o comunismo fez na Europa e olha para o Brasil de hoje, percebe que os mesmos mecanismos de censura e perseguição estão operando aqui, mesmo que, em tese, ainda sejamos chamados de democracia.”
Documentário entrevistou ex-presos políticos e visitou locais históricos
A equipe gravou em lugares ligados à história de regimes autoritários na Europa. Entre eles estão os Museus do Comunismo de Praga e de Varsóvia; o Memento Park, parque de Budapeste que reúne estátuas do período comunista; a Casa do Terror, na Hungria, local usado para tortura no período comunista; e o museu da Stasi, antiga polícia secreta da Alemanha Oriental.
Ao todo, o documentário ouviu 12 pessoas. Entre os entrevistados estão a deputada Beatrix von Storch, a ativista de direitos humanos e ex-comunista Vera Lengsfeld e o escritor Siegmar Faust, preso por mais de cinco anos na Alemanha comunista por causa de suas poesias.
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Lopes afirmou que o filme não cita autoridades brasileiras nem apresenta casos nacionais de forma direta. Segundo ele, a opção foi trabalhar o paralelo por meio das entrevistas e da narração entre os blocos. “Embora não cite nenhuma autoridade brasileira, direciono o espectador para essas situações”, disse. “Não mostro, mas deixo nas entrelinhas.”
O título Nós faz referência ao livro distópico de Evgeni Zamiatin, obra que inspirou os clássicos 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. “Nesses regimes, não existia a individualidade, não existia a liberdade individual, era nós”, disse Lopes. “Não existe eu ou você, é nós.”
Sobre o financiamento, Lopes afirmou que não quis usar recursos da Lei Rouanet para evitar questionamentos relacionados à sua passagem pela Secretaria Nacional do Audiovisual. Segundo ele, o projeto recebeu emendas indicadas pelos deputados Eduardo Bolsonaro, Mário Frias (PL-SP) e Marcos Pollon (PL-MS).
Depois do pré-lançamento em Brasília, o diretor pretende realizar exibições em São Paulo e talvez em Porto Alegre. A equipe também avalia disponibilizar o documentário em uma plataforma de streaming e inscrevê-lo em festivais.
Ao resumir a mensagem do filme, Lopes citou uma frase atribuída ao diretor do Museu da Stasi. “O contrário de ditadura não é democracia, o contrário de ditadura é liberdade e ela depende de cada um de nós”, encerrou.
Leia também: “A ofensiva da censura”, reportagem de Branca Nunes publicada na Edição 141 da Revista Oeste
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Fonte: Revista Oeste · Por Mateus Conte