No próximo dia 6 de julho, Toquinho completará 80 anos. Mas, desde que abraçou a música como uma companheira de vida, na infância, o tempo para ele ganhou outra dimensão. Está mais ligado ao ritmo e à voz que, como consequência natural de quem faz o que gosta, termina em aplauso. É por isso que a jovialidade dele resiste aos anos. Neste ano de 2026, também se completam 60 anos desde o início de sua carreira.
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Toquinho, nascido em 6 de julho de 1946, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, não se empolga muito com esses números. O que o entusiasma é prosseguir a carreira que iniciou aos 20 anos, quando gravou seu primeiro disco solo: A Bossa de Toquinho, em 1966, que em 1968 recebeu o nome de O Violão de Toquinho. Antes, ele, cujo nome formal é Antônio Pecci Filho, já se apresentara em colégios, faculdades e em shows promovidos pelo radialista Walter Silva no Teatro Paramount.
O apoio dos pais, Diva Bondeolli Pecci e Antônio Pecci, descendentes de italianos, foi importante no início. Além dele, o casal teve outro filho, João Carlos, quatro anos mais velho. O apelido, aliás, não deixa de ser uma homenagem à mãe que, com carinho, o chamava, ainda menino, de "meu toquinho de gente". Ele já gostava de canções de Luís Gonzaga, Ângela Maria, Francisco Alves, Orlando Silva, do trompetista Ray Anthony e da orquestra de Ray Conniff, que seu pai costumava ouvir.
Mas o garoto mergulhou mesmo na música desde que viu pela primeira vez um violão, na casa da sua prima Cleize, e se perguntou: "Como é que pode sair tanta música só dessas cordas?" Foi então ter aula com sua primeira professora, a Dona Aurora. Até hoje tenta encontrar a resposta em suas várias atividades como músico: cantor, compositor, arranjador e violonista.
Mesmo já tendo musicado peças de teatro nos anos 1960, o marco da carreira profissional, para ele, foi o lançamento do disco. Dizer que é completamente solo pode ser um exagero. Na música Triste Amor Que Vai Morrer, ele fez parceria com Elis Regina e Walter Silva.
Foi o início de uma trajetória que o consagrou como um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira. E que contou com outras parcerias. A mais marcante foi com Vinicius de Moraes. Durante onze anos foram 120 canções, 25 discos e mais de mil espetáculos.
Tudo começou quando Vinicius se encantou com o dedilhar e o tom suave daquele jovem que acabava de compor seu primeiro grande sucesso, Que Maravilha, com outro parceiro: Jorge Ben. E só terminou com a morte de Vinicius, em 1980, aos 66 anos. Entre as composições da parceria destacam-se O Bem-Amado, Como Dizia o Poeta e Carta ao Tom 74, entre outras.
Na atual etapa, a parceria é com a cantora goiana Camilla Faustino, 37 anos, com quem tem realizado a turnê Só Tenho Tempo Pra Ser Feliz. As apresentações revivem, com o frescor e o carisma de Camilla, canções que marcaram época, como Aquarela, Tarde em Itapoã e O Caderno. Uma versão atual do que se tornou memória afetiva de muitos brasileiros. Em entrevista a Oeste, Toquinho fala sobre a turnê. Mas vai além ao contar o que acha da fama, da importância da gestão da carreira e das mudanças que o streaming trouxe para a música.
Aos 14 anos, você começou a estudar violão popular com Paulinho Nogueira, violão clássico com Isaías Sávio e orquestração com Léo Peracchi. Como foi essa iniciativa? Foi por conta própria ou de seus pais?
A música surgiu muito cedo na minha vida. Houve incentivo da família, mas a iniciativa de me aprofundar foi minha. Eu era fascinado pelo violão e tive a sorte de encontrar mestres extraordinários. Paulinho Nogueira foi meu grande mestre e me abriu as portas para o instrumento. Depois vieram Isaías Sávio, que me deu a disciplina e a técnica do violão clássico, e Léo Peracchi, que ampliou minha visão musical através da orquestração. Cada um deles deixou uma marca profunda na minha formação.
Você tinha em mente se tornar famoso? Como foi essa evolução?
Não. O meu objetivo era tocar bem violão. A fama nunca foi um projeto. O que eu queria era aprender, tocar com músicos que admirava e viver da música. A notoriedade veio como consequência natural do trabalho, das parcerias e das oportunidades que surgiram ao longo do caminho.
Muitos artistas, ao adquirirem fama, se deixam levar pela vaidade. Como você lida com essa questão e como você se sente em relação aos tempos de menino, quando iniciou seu aprendizado?
A música sempre foi maior do que qualquer vaidade pessoal. Quando lembro daquele garoto que passava horas estudando violão, percebo que continuo sendo essencialmente a mesma pessoa. Claro que a experiência muda a gente, mas procuro manter a curiosidade, a disciplina e o respeito pela música.
Como é sua relação com o violão clássico, depois de ter se tornado um cantor e compositor de músicas populares?
O violão clássico foi fundamental para minha formação. Mesmo tendo seguido principalmente a música popular, nunca abandonei completamente esse universo. A técnica e o rigor que aprendi continuam presentes na minha maneira de tocar. De vez em quando ainda gosto de revisitar peças e estudos que fizeram parte da minha formação.
De que maneira você desenvolveu seu talento? Você se soltou de uma maneira natural ou teve de ir moldando sua autoconfiança? Conte um episódio que ilustre sua evolução como artista.
Talento sem trabalho não vai muito longe. Eu sempre estudei muito. A autoconfiança veio aos poucos, através da experiência. Um momento importante foi começar a tocar profissionalmente com artistas que eu admirava. Conviver com grandes músicos me obrigou a crescer rapidamente e a acreditar mais no meu próprio potencial.
Em seis décadas de carreira, quais foram os momentos decisivos da sua trajetória?
Houve vários. O encontro com Paulinho Nogueira foi um deles. Outro momento decisivo foi minha parceria com Vinicius de Moraes. A partir dali minha vida artística ganhou uma dimensão completamente diferente. Também considero muito importante a internacionalização do meu trabalho, especialmente na Itália, e agora essa celebração dos 60 anos de carreira.
Depois de tantos anos de palco, gravações e viagens, o que significa para você ser artista hoje?
Hoje ser artista significa continuar emocionando as pessoas através da música. A profissão mudou muito, principalmente em relação aos meios de divulgação, mas a essência permanece a mesma: comunicar sentimentos e criar conexões humanas.
Em termos financeiros, você sempre se preocupou em organizar sua vida profissional. Como vê a importância desse cuidado?
O artista precisa entender que carreira também é gestão. Sempre procurei ter responsabilidade com minhas decisões. Existem profissionais que me auxiliam, mas considero importante acompanhar de perto tudo o que envolve minha atividade profissional.
De que maneira essa questão financeira foi mudando ao longo dos tempos?
Mudou bastante. Antigamente o mercado era mais concentrado em discos e shows. Hoje existem muitas outras possibilidades, tanto de receita quanto de investimento. É preciso estar atento às transformações e adaptar-se às novas realidades sem perder o foco no trabalho artístico.
Quando você olha para esses 60 anos de carreira, o que mais lhe chama a atenção e o que ainda o motiva?
O que mais me impressiona é o carinho das pessoas e a permanência das canções ao longo das gerações. O que me motiva é continuar encontrando novas formas de apresentar essa obra e seguir aprendendo todos os dias.
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Em sua longa parceria com Vinicius de Moraes, houve algum momento que tenha marcado de forma decisiva sua maneira de fazer música?
Foram muitos momentos. Mais do que episódios isolados, foi a convivência diária. Vinicius me ensinou a olhar a canção como uma obra completa, em que melodia, letra e emoção caminham juntas. Aprendi muito observando sua forma de criar e de viver a arte.
O que sua parceria com Camilla Faustino tem de diferente em relação a outras parcerias?
A Camilla trouxe uma energia nova para o palco. Além de ser uma cantora muito talentosa, possui uma relação muito respeitosa com meu repertório. Ela consegue dialogar com diferentes gerações e dar frescor às canções sem descaracterizá-las.
Como você se adaptou aos tempos de streaming e plataformas digitais?
A adaptação aconteceu naturalmente. A tecnologia mudou a forma de consumir música, mas não mudou a necessidade de fazer boa música. Procuro acompanhar as transformações e utilizar essas ferramentas para alcançar novos públicos.
Até que ponto essas mudanças contribuem para uma arte de qualidade e até que ponto abrem margem para algo mais fútil?
Toda transformação tecnológica amplia possibilidades. Ela permite que mais pessoas produzam e divulguem seu trabalho. Ao mesmo tempo, aumenta o volume de conteúdo disponível. A qualidade continua dependendo do talento, do estudo e da dedicação de cada artista.
Em julho você completa 80 anos. Como encara esse momento? Vai haver alguma comemoração especial?
Chegar aos 80 anos com saúde, disposição e ainda fazendo aquilo que amo é um privilégio. A melhor comemoração é poder continuar no palco, tocando para o público. Este ano tem um significado especial porque coincide com a celebração dos meus 60 anos de carreira, e isso por si só já é uma grande festa.
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Este conteúdo é originalmente de Revista Oeste. Para a reportagem completa com todos os detalhes, acesse:
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Fonte: Revista Oeste · Por Eugenio Goussinsky