Os meses de abril e maio passaram rapidamente, e tivemos muitos assuntos para comentar, mas não nos esquecemos de verificar qual seria o resultado estatístico de tantos quadros meteorológicos extremamente frios observados durante o inverno de 2025-2026 do Hemisfério Norte. Todas as pessoas que acompanharam minimamente as notícias viram como a situação ficou bastante precária em vários países, como Japão, Estados Unidos e diversas regiões da Europa e do norte da Ásia, ou mesmo testemunharam essas condições in loco. Ao mesmo tempo, por várias vezes a mídia anunciou que tais condições de frio extremo não eram vistas havia 30 ou 40 anos, dependendo do local. Sendo assim, restou-nos esperar o encerramento dos meses de inverno para acessarmos os resultados.
Com tantos quadros meteorológicos que apresentaram condições de frio extremo, em alguns casos perdurando por até uma semana, o mínimo que esperaríamos seria um destaque significativo de anomalias negativas nos campos de temperatura do ar na baixa troposfera (a base da primeira camada da atmosfera, de baixo para cima), obtidos a partir das observações realizadas pelos satélites da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA).
Essa premissa torna-se bastante interessante para realizar algumas comparações e até mesmo verificar se as estimativas de temperatura da base da troposfera de determinada região geográfica são condizentes com a realidade. Ademais, uma vez obtidos os valores supostamente resultantes dos fenômenos e processos desse substrato, dentro de um determinado intervalo de tempo — mensal, por exemplo —, o resultado pode ser comparado com a média climatológica que compõe o período vigente de 30 anos. Essa operação permite estimar se aquele ponto geográfico, dentro do intervalo analisado, apresentou-se mais quente ou mais frio do que a média. Nada além disso.
Já realizamos esse experimento anteriormente e relatamos os resultados aqui, referentes ao período de setembro de 2023. Na ocasião, uma sequência de sistemas frontais frios, acompanhados por seus respectivos Anticiclones Polares Móveis (APM), atingiu de forma persistente o corredor Noroeste-Sudeste do Brasil, que vai de Rondônia aos Estados da Região Sul. No caso, a localização da persistência do frio foi mais precisa, permanecendo entre o sul de Mato Grosso do Sul e a região costeira dos Estados de Santa Catarina e Paraná. Na ocasião, os satélites registraram uma anomalia negativa de temperatura. Ou seja, naquela localidade, os sistemas atmosféricos foram tão frios que a média do mês apresentou valores abaixo da média climatológica de 30 anos para o mesmo local (Fig. 1).
Se todo aquele frio de setembro de 2023 não fosse relevante, como alegaram os aquecimentistas, o valor da anomalia estaria positivo para a localidade (um frio demasiadamente “aquecido”), pois o valor da média climatológica estaria abaixo da média daquele mês, fato que não aconteceu. Assim, com base na mesma premissa, é lícito perguntar: o que aconteceria se aplicássemos a mesma avaliação à região ártica (para além de 60°N) e às latitudes médias do Hemisfério Norte nesse último inverno (30° a 60°N)?
+ Choque de realidade nas avaliações climáticas?
Antes disso, precisamos descrever, ainda que de forma singela, o processo de construção do mapa de temperaturas do ar em seus substratos troposféricos (base, média e alta). Os satélites utilizam radiômetros ou sensores equivalentes, sondadores de micro-ondas que estimam as temperaturas do ar do substrato. Não são medidas diretas, portanto, mas apenas aproximações derivadas dos processos físicos que ali ocorreram, podendo ser bastante prejudicadas pela presença de nuvens, por exemplo.
Ademais, embora os satélites utilizados sejam de órbita polar, suas trajetórias não passam exatamente sobre os mesmos lugares, gerando algumas distorções na obtenção dos dados pela linha de visada dos sensores. Esse é outro problema, pois é necessário “encaixar” o dado dentro da matriz de latitude e longitude, cujos algoritmos podem trabalhar com médias de proximidade ou interpolações. Ao final do mês, somam-se todas as matrizes criadas e obtém-se a matriz média. Ela será convertida em um mapa-múndi (excluindo-se os polos, em um círculo de cinco graus de raio onde os satélites não conseguem observar), trazendo os valores médios para o substrato.
O valor de referência da média climatológica é obtido seguindo o padrão de 30 anos fechados, que atualmente corresponde ao período de 1991 a 2020. Isso também pode ser feito apenas para um determinado mês ou para todo o período analisado. Uma vez obtida essa média de referência, realiza-se uma operação de soma gráfica com a matriz do mês. A matriz resultante deverá apresentar valores positivos ou negativos em relação à referência de 30 anos. Esse será o mapa final de anomalia.
+ A farsa do "aquecimento" da Antártica
Assim, quando comparamos o planisfério de anomalias de temperatura do ar da baixa troposfera de janeiro de 2026, concentrando-nos especificamente no Hemisfério Norte, notamos uma significativa anomalia positiva de 6,5°C, nucleada no Mar de Baffin, estreito que separa o nordeste do Canadá e a Groenlândia, reduzindo-se para zero até suas bordas, com um raio aproximado de mil quilômetros. Outra área com anomalia positiva de 3,5°C manteve-se sobre a região nordeste da Sibéria. Já as áreas frias ocuparam o nordeste dos EUA, toda a região central e norte da Europa, incluindo a Península Ibérica, além da Ásia, especialmente a Rússia e o Japão (neste último, apenas as ilhas do sul), situação relativamente condizente com o que observamos nas notícias.
Notemos que boa parte das áreas apresentou anomalias entre –0,5°C e 0,5°C, que podem ser praticamente ignoradas, constituindo mais um ruído estatístico do que uma alteração real. Ainda assim, soa estranho que, diante de tantas ocorrências frias relatadas, os quadros meteorológicos mal tenham criado grandes bolsões de anomalias negativas. Contudo, o que mais espanta é a existência de zonas de anomalias positivas altamente exageradas, mesmo que relativamente pequenas em relação ao todo. Convém lembrar ao leitor da distorção decorrente da projeção geográfica: parecem grandes no mapa, mas são muito pequenas no mundo real, sobretudo em altas latitudes.
Que temperaturas médias teriam então sido observadas em Baffin e na costa oeste da Groenlândia para destoarem tanto para cima? As temperaturas avaliadas pelos satélites, em janeiro de 2026, foram realmente muito mais altas que a média climatológica de 30 anos registrada na região, apesar de todo o frio relatado?
Quando passamos para fevereiro de 2026, a situação tornou-se ainda mais bizarra. Agora, as anomalias negativas concentram-se quase totalmente para além de 60°N, exceto por um bolsão situado na costa leste dos EUA. Toda a Europa e a Ásia, incluindo o Japão e principalmente suas ilhas do norte, apresentaram anomalias positivas de temperatura, dentro da faixa de 1,5°C a 2,5°C. Mais quente, mas por quê, com tanto frio? Estariam as médias climatológicas de 30 anos tão mais baixas assim ou teria acontecido outra coisa?
Será que as avaliações de temperatura não estariam comprometidas pelos processos que ocorrem na troposfera, especialmente em casos de grande nebulosidade ou sistemas frontais intensos com precipitação de neve? Esse é um questionamento que fazemos há muito tempo e que também é relatado por diversos pesquisadores. Como os satélites operam instrumentos como espectrômetros de resolução moderada, radiômetros e sondadores de micro-ondas, há grandes discrepâncias, especialmente quando o substrato superficial apresenta nuvens baixas, algo bastante comum na Antártida e nas áreas oceânicas adjacentes, bem como no Ártico e nas áreas continentais de altas e médias latitudes durante o inverno.
+ Mais suposições modeladas sobre o "aquecimento" da Antártica
Se esse for também o caso, aspectos regionais de persistência na formação de nuvens já estariam computados nessas médias ao longo dos 30 anos? Essa pergunta ainda não tem resposta, indicando que a recorrência ou a ausência regional de nuvens pode ter “viciado” as médias satelitais, fazendo destoar casos particulares, especialmente em zonas de altas latitudes, onde a avaliação é mais precária.
Ademais, como os satélites avaliam temperatura por processos internos dos substratos, sabe-se que condições de evaporação e precipitação interferem na absorção ou liberação de energia, convertendo calor latente em sensível e vice-versa. Muita precipitação de neve, liberando calor latente em sensível, poderia interferir na leitura dos radiômetros?
O meteorologista Ph.D. e cético moderado em relação ao “aquecimento global”, doutor Roy Warren Spencer, realizou experimentos teóricos comparando modelos do IPCC com seus forçamentos radiativos e não radiativos, como evaporação e precipitação, para testar relações de causa e consequência em escalas de tempo mais curtas (ou feedbacks, mais precisamente). Embora esse não fosse seu objetivo principal, entendo que seus resultados apontam para uma possível explicação dessas singularidades, pois demonstraram que desequilíbrios radiativos provavelmente ocorrem devido a flutuações naturais na cobertura de nuvens, o que faz muito sentido, tendo em vista que os satélites convertem temperaturas a partir da radiação recebida.
Doutor Spencer já havia comentado anteriormente outro processo bastante interessante: a subsidência na estratosfera antártica (descensão do ar, movimento de cima para baixo), observada em outubro de 2019. A compressão adiabática seca que se seguiu em vasta área do continente polar causou um aquecimento na coluna de ar e gerou confusão entre aqueles que buscavam evidências de um “aquecimento catastrófico na Antártida para afogar o mundo” por causa do CO₂. Provavelmente, o bolsão de anomalia “quente” de 6,5°C observado esteja conectado ao colapso da coluna de ar quando foi relatado o início do enfraquecimento do vórtice polar, ocasião que permitiu o avanço do ar frio por vastas áreas do Hemisfério Norte, como observamos.
Lembremos que o doutor Spencer sempre alertou que os sensores desses satélites não são calibrados por Estações Meteorológicas de Superfície (EMS), mas por um procedimento interno de comparação a bordo da plataforma espacial. O sensor é apontado para uma placa calibradora, obtendo um valor de referência; depois, aponta para o espaço profundo, adquirindo outro valor-padrão para a temperatura radiativa cósmica de fundo (2,7 Kelvin); e somente então aponta para o alvo terrestre. Esse procedimento é executado a cada varredura.
De qualquer forma, ficou evidente para todas as pessoas que tiveram acesso a algum tipo de notícia que o inverno de 2025-2026 (dezembro-janeiro-fevereiro) do Hemisfério Norte foi tragicamente frio, causando problemas, transtornos e até óbitos. A tempestade de neve em Nova Jersey, por exemplo, ultrapassou 79 cm em 23/2/2026, sendo relatada como a “tempestade que será lembrada por algumas gerações”. Assim, torna-se difícil aceitar que as temperaturas tenham destoado positivamente da média, como os satélites mostraram, quando já apresentamos o caso de setembro de 2023. Dessa forma, tais representações de dados satelitais das altas e médias latitudes do Hemisfério Norte durante o último inverno são, no mínimo, intrigantes. Como diria Jack Palance, apresentando um famoso programa na extinta TV Manchete, em 1984: “Acredite se quiser!”.
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Este conteúdo é originalmente de Revista Oeste. Para a reportagem completa com todos os detalhes, acesse:
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Fonte: Revista Oeste · Por Ricardo Felício