As negociações diplomáticas entre Israel e Líbano, reiniciadas nesta terça-feira, 23, em Washington, reavivaram uma questão que influenciou a própria política israelense de autodefesa em território libanês. Trata-se da possível devolução dos restos mortais de Ron Arad, navegador da Força Aérea de Israel, que desapareceu em combate no dia 16 de outubro de 1986, no sul do Líbano.
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O caso se tornou um dos episódios mais prolongados e controversos da história militar israelense. Ao longo dos anos, passou por diferentes fases de controle, disputas internas entre grupos armados libaneses e operações de inteligência israelense. Neste momento em que a negociação entra na quinta etapa, depois de ter sido iniciada em abril, representantes israelenses e libaneses estariam discutindo a devolução dos restos mortais de Arad em troca de prisioneiros libaneses, segundo informou a imprensa libanesa nesta terça-feira.
Tal fato demonstra o grau de hostilidade entre Líbano e Israel desde a independência de ambos, em 1943 e 1948, respectivamente. Apesar de o governo libanês não estar formalmente ligado a grupos sectários, a atuação dessas organizações em território libanês distanciou o país de uma boa relação diplomática com Israel. O caso Arad ilustra isso. Um de seus sequestradores, Nabih Berri, é presidente do Parlamento libanês desde 1992. Em 1980, ele assumiu o comando da Amal.
As investigações israelenses revelaram que a captura inicial de Arad ocorreu por integrantes do Amal, movimento xiita, na época uma das principais milícias atuantes no sul do Líbano durante a guerra civil (1975-1990). De milícia, o Amal se tornou um partido político xiita no Líbano, com forte presença institucional.
Arad foi ejetado de um F-4 Phantom depois de uma falha durante missão de ataque na região. O piloto da aeronave, Yishai Aviram, foi resgatado por forças israelenses. Arad, no entanto, foi capturado em solo libanês. Berri, na época, teria exigido que o refém israelense fosse trocado por prisioneiros libaneses, mas as negociações fracassaram e Arad foi mantido em cativeiro.
No período do desaparecimento de Arad, o Amal controlava áreas estratégicas no sul do Líbano e esteve envolvido em diversos confrontos com Israel e com outras milícias. Dentro da estrutura da Amal, o nome central associado ao caso é Mustafa Dirani, então chefe de segurança do movimento.
Dirani teria sido responsável por manter Arad sob custódia em Beirute nos primeiros anos depois da captura. Posteriormente, ele rompeu com a Amal e criou uma estrutura dissidente conhecida como Believing Resistance (Resistência dos Crentes).
Relatos de inteligência israelense e investigações posteriores indicam que, depois dessa fase inicial, o controle sobre Arad teria passado por diferentes redes armadas no Líbano, incluindo o Hezbollah e, possivelmente, conexões com o Irã, por meio da Guarda Revolucionária, a partir de 1988. Essa etapa não possui confirmação documental completa e permanece baseada em relatórios de inteligência e depoimentos indiretos.
Grupos no Líbano com Ron Arad
Em 21 de maio de 1994, forças especiais israelenses capturaram Dirani no Vale do Beqaa, no Líbano. A operação tinha como objetivo obter informações sobre onde estaria Ron Arad. Dirani permaneceu preso em Israel até 2004, quando foi libertado em uma troca de prisioneiros envolvendo o Hezbollah.
O paradeiro de Ron Arad permanece desconhecido. Uma comissão militar israelense concluiu que ele provavelmente morreu em algum momento da década de 1990, mas não há confirmação sobre data, circunstâncias ou localização dos restos mortais. Em 2006, o líder do grupo terrorista, Hassan Nasrallah, morto por Israel em 2024, afirmou que Arad havia morrido durante uma tentativa de fuga.
O fato de, neste momento, o tema ter voltado à tona indica que, na visão de Israel, o Líbano tem conhecimento a respeito do que ocorreu com Arad. Em Israel, é frequente a crítica ao Estado libanês por não ter investigado ou esclarecido adequadamente o caso ao longo dos anos.
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A atual rodada de negociações, no Departamento de Estado norte-americano, reúne representantes de Israel, do Líbano e dos EUA. Segundo a agência oficial libanesa e outras fontes, combina discussões de segurança e questões políticas.
Tem relação direta com a guerra entre Israel e o Hezbollah, intensificada desde março de 2024, no contexto da escalada regional envolvendo o Irã. Desta vez, o objetivo é atribuir ao Líbano a responsabilidade de conter as forças do Hezbollah e viabilizar um cessar-fogo.
As negociações visam à retirada gradual de forças israelenses de determinadas áreas do sul do Líbano. Para isso, serão discutidas a criação das chamadas “áreas-piloto”, sob controle exclusivo do Exército libanês; a redução da presença e da influência militar do Hezbollah nessas regiões; a implementação do cessar-fogo, entre outras questões pendentes entre os dois países.
Entre essas questões, a de Arad voltou ao noticiário. Nunca, no entanto, deixou de ser uma preocupação das Forças de Defesa de Israel. Para Israel, esclarecer o destino de Arad possui enorme valor nacional. O país historicamente atribui grande importância à recuperação de militares desaparecidos ou de seus restos mortais, com diversas trocas de prisioneiros e negociações ao longo dos anos envolvendo esse tema.
A notícia da negociação em torno de Arad pode indicar que informações mantidas por décadas em círculos ligados a grupos armados estariam sendo utilizadas como moeda de negociação. Dentro de um processo diplomático mais amplo entre Israel, Líbano e os mediadores norte-americanos. Com o Hezbollah enfraquecido depois dos confrontos de 2024 e 2025, o governo libanês e seus apoiadores internacionais, especialmente os EUA, buscam fortalecer o papel do Estado no sul do Líbano. Mesmo que isso revele informações mantidas sob sigilo ao longo dos anos.
O post Israel e Líbano: negociações para desarmar Hezbollah expõem tensões históricas apareceu primeiro em Revista Oeste.
Este conteúdo é originalmente de Revista Oeste. Para a reportagem completa com todos os detalhes, acesse:
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Fonte: Revista Oeste · Por Eugenio Goussinsky