Dados da Nielsen BookData, divulgados pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), mostram que o preço médio do livro caiu 1,5% nos primeiros três meses de 2026. No mesmo período, a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), foi de 1,92%. Note-se, também, que a média de desconto no varejo aumentou 27,1% neste ano. Trocando em miúdos: o livro no Brasil está ficando mais barato, e não mais caro. As editoras tendem a não repassar o ajuste total da inflação aos consumidores e reduzem suas margens de lucro. Isso ficou ainda mais evidente em 2025, quando o preço médio do livro subiu nominalmente apenas 0,83%, enquanto o IPCA do período foi de 4,26%.
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Segundo a empresa espanhola de consultoria especializada em mercado editorial, Proyecto 451, o Brasil hoje é o quinto país com os livros mais baratos quando se converte o preço médio de R$ 70 por exemplar para o equivalente em dólar. Mas, então, o que explica a sensação imediata, comum e constante de que livros no Brasil são caros?
Vem cá, vou te explicar.
Naquela mesma pesquisa da Proyecto 451, intitulada El libro y el salario: Poder adquisitivo y accesibilidad al libro en los principales mercados editoriales de Europa y América Latina, chega-se a conclusões muito esclarecedoras sobre o mercado editorial brasileiro e o poder de compra dos consumidores de livros. Considerando que o salário médio nacional é de R$ 3.400 por mês, segundo o IBGE/PNAD, e que a média do preço do livro no Brasil seja de cerca de R$ 70 a unidade (considerando as médias de ficção e não ficção), temos, então, uma capacidade teórica de compra de 49 livros por mês para o brasileiro médio. Em termos comparativos, a Argentina aparece com um poder de compra de 60 livros/mês, Portugal com 88, Alemanha com 159, França com 215 e Reino Unido com 252 livros ao mês.
Obviamente que aqui estamos no mundo das estatísticas especulativas: um brasileiro médio não compra 49 livros por mês, assim como um britânico médio não adquire 252. Os dados, antes de tudo, são elucidativos de um problema maior, de classe econômica geral.
Com um salário mínimo de R$ 1.621 por mês, não preciso dizer que a coisa piora ainda mais num panorama de classe baixa e média-baixa. Segundo o Dieese, se fôssemos corrigir hoje a defasagem inflacionária do salário mínimo no país, teríamos de subir o valor para R$ 7.425,99. Esse cálculo explica muito bem a situação mercadológica do livro por aqui: um sufocamento econômico gerado por uma gestão monetária instável, centralizadora, burocrática em um país cada vez menos aberto à livre-iniciativa.
Outro ponto a ser considerado é que ambas as informações sobre o preço final do objeto são verdadeiras. O livro é barato se comparado com a crescente da inflação no Brasil. No entanto, como a economia brasileira está numa decaída acentuada nos últimos quatro anos, com o poder de compra de itens básicos cada vez mais reduzido, os gastos com cultura tendem a ser os primeiros cortados da economia familiar brasileira. Ou seja, no fim, o preço do livro se torna, sim, caro se comparado com os gastos necessários da renda familiar do brasileiro, ainda que as editoras tentem não repassar os ajustes da inflação.
Em suma, o livro no Brasil não é caro por ganância do mercado, ou por um número ainda baixo de leitores-consumidores — ainda que essa última afirmação seja um fato. Ele é caro, acima de tudo, porque ganhamos mal e temos que suprir as necessidades básicas que, por si, consomem parcela significativa do salário que poderia ser gasto com cultura e entretenimento.
Em países alinhados a uma economia mais centralizadora na América Latina e Central, como o caso do Brasil, Peru e México, a dificuldade em manter uma capacidade de compra de livros por salários médios se mostra ainda mais grave. Isso ocorre na Europa, onde países mais economicamente alinhados ao socialismo têm os piores indicadores, tal como em Portugal e Espanha.
O paradoxo que elucidamos aqui tem ainda mais um ingrediente. Em 2025, segundo a Nielsen BookData, a venda de livros no Brasil teve um crescimento de 7,75% em termos de volume, e, em faturamento, 8,68% em relação a 2024. Quando falamos do Primeiro trimestre de 2026, em termos comparativos com 2025, o crescimento foi de 16,2%. É verdade que o fenômeno dos livros de colorir explica ao menos metade desse crescimento em 2025, e o fator TikTok também explica muito do crescimento em 2026, dado que os destaques de venda esse ano são os livros de ficção jovem-adulto — os queridinhos do BookTokers.
Isso é papo para outro dia, mas também é real que o TikTok tende a inflacionar a percepção da expansão em números de jovens leitores, ao passo que estimula a compra de livros sem, necessariamente, formar efetivos novos leitores, servindo apenas ao fetiche estético de se autodenominar um BookToker. Ou seja, além dos livros de colorir que se tornaram virais ano passado, temos genuinamente novos consumidores — e não necessariamente novos leitores — de livros no país, fruto, majoritariamente, da influência de personalidades literárias das redes sociais. Assim, o crescimento do setor apontado acima se explica mais com a entrada de novos consumidores no mercado do que pela capacidade aumentada de compra de livros dos que já eram consumidores; na realidade, a tendência macroeconômica é que os que já são consumidores de livros, em virtude da queda econômica geral, comprem cada vez menos.
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De todo modo, a expansão mercadológica observada em 2025 e 2026 só mostra como o cenário editorial poderia ser ainda maior e mais expansivo se o país proporcionasse um sistema financeiro mais estável e progressivo, menos ideológico e mais pragmático, e de quebra impulsionasse a cadeia de influenciadores literários digitais. Não julguem que eu ache ruim ou não comemore a crescente de novos consumidores, sejam eles por via do Bobbie Goods, seja por meio dos BookTokers. Porém, a questão é antes fazer de tal crescimento algo sustentável a longo prazo, e esse “algo” depende diretamente de uma economia nacional equilibrada e de um plano de leitura que atravesse o fetichismo.
No fim, fica claro que a epopeia de encontrar o culpado pela resistência à expansão do mercado editorial brasileiro passa, por nossa incapacidade de formar leitores conscientes e constantes da arte da leitura, mas também pelo momento econômico geral do país — e esse fator costuma ser negligenciado nesse debate. Torna-se relativamente intuitivo compreender a questão quando se olha com franqueza para o problema geral: quando o poder de compra do cidadão é afetado negativamente, num país cuja leitura não é nem de longe a prioridade popular, o primeiro setor a ser afetado é o da cultura e, em especial, o de livros.
Assim, parece não ser completamente verdade que o brasileiro não compra livros somente porque ele não quer, por falta de políticas públicas ou por não se preocupar com a “bibliodiversidade”. O brasileiro médio não compra livros porque simplesmente não consegue com o salário que tem. E quando o panorama é esse, cabe-nos perguntar aos setores envolvidos se não é hora de soltar a corda ideológica e abraçar o que funciona na economia para que, ao final, todos ganhem. E vejam, nem é mais questão de preferência partidária, é tão somente questão de sobrevivência e viabilidade mercadológica.
Leia também: O mercado editorial descobre a direita, reportagem de Anderson Scardoelli publicada na Edição 286 da Revista Oeste
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Este conteúdo é originalmente de Revista Oeste. Para a reportagem completa com todos os detalhes, acesse:
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Fonte: Revista Oeste · Por Pedro Henrique Alves