Abril foi, para israelenses e libaneses, o mais intenso mês em termos de diplomacia entre os dois países das últimas décadas. O momento mais surpreendente ocorreu em 14 de abril, quando seus representantes sentaram-se juntos em Washington para acordar, sem intermediários, um novo cessar-fogo.

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Mesmo que o Hezbollah não tenha reconhecido a legitimidade do acordo, a notícia lançou uma onda de esperança no ar. Afinal, há décadas o contato entre os dois países se dava quase exclusivamente por meio de confrontos armados.

A euforia da boa nova foi diluída pouco depois, com a retomada dos ataques do Hezbollah imediatamente respondidos pelo exército israelense, sob os mesmos olhares inócuos do governo libanês. Desde então, dois soldados israelenses foram mortos e dezenas, feridos.

Entendendo o conflito

O conflito entre Israel e o Líbano nunca foi entre os dois Estados, mas entre um Estado e um ator armado que se enraizou profundamente dentro de outro. O Hezbollah, braço armado do Irã no Oriente Médio, não é apenas uma milícia. Ao longo dos anos, construiu uma estrutura paralela que combina poder militar, influência política e atuação social. Essa sobreposição não é acidental, mas parte de uma estratégia deliberada do movimento islamista para consolidar seu poder e angariar legitimidade.

O resultado é um cenário em que as fronteiras entre o Estado libanês e o grupo se tornaram difusas. As garras do Hezbollah estão cravadas no tecido do país. É justamente por isso que qualquer discussão sobre paz na região passa, inevitavelmente, pela questão interna libanesa — e não apenas por negociações externas.

Linha de Defesa Avançada e a área em que os soldados das FDI operam depois do acordo de cessar-fogo | Foto: Reprodução/IDF

Ainda assim, o que ocorreu neste mês rompeu um padrão histórico. Representantes de Israel e do Líbano se encontraram sem armas, sem capacetes e sem intermediação indireta. O encontro aconteceu semanas depois de o presidente libanês, Joseph Aoun, convidar Israel para negociações diretas, um gesto raro e politicamente arriscado.

A presença de oficiais dos dois países à mesma mesa, acompanhados por representantes dos Estados Unidos, carrega um peso simbólico significativo. Não se trata ainda de paz — como reconheceu um oficial israelense ao afirmar que “não estamos perto de soltar pombas da paz” —, mas de algo igualmente importante: o início de um processo. Pela primeira vez em muito tempo, o governo libanês parece disposto a retomar o controle de seu próprio destino.

Desarmamento do Hezbollah

O encontro inicial não resultou, obviamente, em um acordo concreto. As prioridades de cada lado seguem claramente desalinhadas. O Líbano, depois de semanas de intensos bombardeios ao norte do Rio Litani e confrontos severos ao sul, busca um cessar-fogo imediato. A pressão interna é enorme: cerca de um quinto da população, especialmente nos mais de 200 vilarejos xiitas do sul do país, encontra-se deslocada.

Grupo terrorista atua no Líbano | Foto: Getty Images

Israel, por sua vez, insiste em uma condição que considera inegociável: o desarmamento efetivo do Hezbollah — não apenas ao sul do Litani, mas em todo o território libanês. A exigência não surge do nada. Ela está ancorada em compromissos anteriores assumidos pelo próprio governo libanês, que previam a retirada e o desmantelamento das estruturas do grupo na região — compromissos que, na prática, não foram cumpridos.

A dimensão do problema é evidenciada pela própria estrutura construída pelo Hezbollah ao longo dos anos. Como observou Miri Eisen, analista geopolítica e militar israelense, o grupo transformou as áreas subterrâneas de vilarejos e cidades sulistas em arenas de guerra. Mesmo depois de sofrer perdas significativas — com a destruição de 70% de sua capacidade bélica —, o que resta ao Hezbollah ainda representa um poder de fogo amplo o suficiente para não permitir que os israelenses vivam normalmente.

Governo reformista

Diante desse cenário, o papel do governo libanês é decisivo. Será preciso paciência, persistência e, sobretudo, coragem política. A história recente do Oriente Médio mostra que líderes que desafiam vozes internas frequentemente pagam um preço alto: assassinatos políticos não são exceção, mas parte recorrente da dinâmica regional — até mesmo em Israel.

Ainda assim, há sinais de mudança. O atual governo, eleito no início de 2025, assumiu com uma plataforma reformista que inclui explicitamente o desarmamento de “atores não estatais” — uma referência direta ao Hezbollah. Mais do que retórica, algumas ações concretas começaram a surgir. Oficiais do governo, irritados com a decisão do grupo de arrastar o país para mais um conflito com Israel, iniciaram movimentos para criminalizar suas atividades militares.

A tensão com o Irã também se tornou mais visível. A expulsão do embaixador iraniano, ainda que desafiada na prática pela permanência do diplomata no país, representa um gesto político relevante.

O primeiro passo de um processo

Do lado americano, a mensagem é otimista e cautelosa. O secretário de Estado, Marco Rubio, destacou que negociações desse tipo não devem ser vistas como eventos pontuais, mas como processos longos e complexos.

Ainda assim, há uma expectativa crescente — tanto entre libaneses quanto entre israelenses — de que algo estrutural pode estar começando a mudar. Entre analistas, ganha força a ideia de que, caso o Líbano consiga, de fato, reduzir ou eliminar a influência iraniana em seu território, abre-se a possibilidade de uma reconfiguração profunda das relações regionais. Isso incluiria, potencialmente, uma aproximação formal entre os dois países e até mesmo a integração do Líbano a iniciativas como os Acordos de Abraão.

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A base para essa esperança não é apenas estratégica, mas também histórica. Antes mesmo da criação do Estado de Israel, judeus e libaneses mantiveram relações relativamente harmoniosas. Depois de 1948, o Líbano abrigou comunidades judaicas que fugiam de perseguições em países vizinhos como o Iraque e a Síria, oferecendo alguma estabilidade em meio a um contexto regional turbulento.

As conexões se estendem para além do Oriente Médio. O Brasil, por exemplo, construiu ao longo do tempo uma relação profunda com a diáspora libanesa. Hoje, o país acolhe a maior diáspora libanesa do mundo — entre 7 e 10 milhões de pessoas, mais numerosa do que a população do Líbano em si, de cerca de 5 milhões. Ao mesmo tempo, esse fluxo migratório também incluiu a chegada de membros ligados ao Hezbollah, que inicialmente se concentraram na região da Tríplice Fronteira e, com o tempo, se espalharam pelo país. Mas essa é outra história.

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Em Israel, usa-se uma imagem para traduzir um desejo antigo: o desejo de atravessar a fronteira norte em tempos de paz para comer hummus em Beirute ou em Damasco. É uma ideia romântica e cheia de significado, que ilustraria não apenas o fim de um conflito, mas a normalização de uma convivência que, por décadas, pareceu impossível.

Se há algo diferente neste momento, é a percepção de que essa possibilidade, por mais distante que ainda pareça, deixou de ser apenas uma abstração. O caminho continua incerto, frágil e repleto de riscos. Mas, pela primeira vez em muito tempo, ele parece — ainda que tenuemente — aberto.

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Fonte: Revista Oeste · Por Miriam Sanger