A Polícia Federal (PF) apreendeu mais de R$ 70 milhões em criptomoedas ligadas a crimes no ano passado, o maior valor já registrado pela corporação desde o início do monitoramento oficial desse tipo de ativo digital. O montante representa mais de seis vezes o total bloqueado em 2024, mas investigadores avaliam que a cifra ainda corresponde apenas a uma fração do dinheiro movimentado por organizações criminosas com auxílio de criptoativos no Brasil.

As apreensões ocorreram em operações ligadas a tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, crimes cibernéticos, fraudes financeiras, tráfico humano e esquemas internacionais de ocultação patrimonial.

Dados obtidos pelo jornal Folha de S.Paulo via Lei de Acesso à Informação mostram que o crescimento das apreensões acompanha a expansão do mercado de criptomoedas no país. Em 2025, mais de R$ 505 bilhões circularam no Brasil em operações declaradas à Receita Federal. O país aparece entre os maiores mercados de ativos digitais do mundo.

Autoridades brasileiras contra-atacam

O avanço do uso criminoso das criptomoedas levou polícias estaduais e federais a criarem estruturas especializadas em rastreamento digital e investigação de blockchain (sistema que registra operações com criptoativos).

Em 2022, o Ministério da Justiça criou o Núcleo de Operações com Criptoativos (NOC). A PF também estruturou uma unidade dedicada a crimes cibernéticos, enquanto estados passaram a montar células focadas em delitos digitais.

Nos últimos anos, investigações da PF encontraram criptomoedas em esquemas ligados a ataques hackers contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro associada ao PCC, tráfico internacional de drogas e redes de exploração humana.

O crescimento acelerado do setor ampliou a disputa entre velocidade tecnológica e capacidade de fiscalização do Estado | Foto: Divulgação/Oeste

Um dos casos recentes envolveu o desvio de R$ 1,5 bilhão em ataques contra estruturas ligadas ao Pix e ao Banco Central. Em outra investigação, a PF rastreou um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou sozinho mais de R$ 12 bilhões entre 2017 e 2020.

As criptomoedas passaram a atrair organizações criminosas pela velocidade nas transferências, pela circulação internacional instantânea e pela dificuldade inicial de rastreamento. Ao contrário de operações bancárias tradicionais, transferências com ativos digitais podem ocorrer sem intermediários financeiros clássicos e sem identificação imediata dos envolvidos.

O mundo das criptomoedas

O avanço das stablecoins ampliou esse cenário. Desde 2021, a criptomoeda mais utilizada no Brasil é a USDT, ativo digital pareado ao dólar e emitido pela empresa Tether. Hoje, a USDT responde por cerca de dois terços das operações declaradas à Receita Federal. A popularização da USDT ocorreu por causa da baixa volatilidade e da rapidez nas transferências.

Enquanto uma operação com bitcoin pode levar cerca de dez minutos para validação completa, transações com stablecoins costumam ser liquidadas em segundos. O Banco Central pôs as stablecoins entre as prioridades regulatórias de 2026. A preocupação da autoridade monetária envolve mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro, financiamento do terrorismo e ocultação patrimonial.

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No fim do ano passado, o BC publicou resoluções para regulamentar a Lei de Ativos Virtuais, aprovada em 2022. As normas criaram regras para empresas que atuam no setor e estabeleceram exigências de transparência e controle. Apesar disso, integrantes da Associação Nacional dos Auditores do Banco Central afirmam que a autoridade monetária ainda não possui uma estrutura plenamente consolidada para fiscalizar o cumprimento das novas regras.

Enquanto o mercado cresce, investigadores enfrentam outro problema: a velocidade de adaptação das organizações criminosas. Dados da empresa de monitoramento Chainalysis mostram que carteiras digitais associadas a atividades ilegais movimentaram cerca de US$ 155 bilhões no mundo em 2025, que correspondem a R$ 755 bilhões na cotação atual.

A Polícia Federal informou que não possui registros consolidados sobre apreensões anteriores a 2023 e que os números divulgados não incluem ativos localizados por polícias civis estaduais. Mesmo assim, o uso de blockchain também passou a beneficiar os investigadores.

Criminosos em atividade

Embora criminosos tentem ocultar recursos com ferramentas digitais, transações feitas em redes públicas deixam registros permanentes. Em muitos casos, a PF consegue reconstruir o caminho do dinheiro a partir de ordens judiciais de quebra de sigilo enviadas a corretoras de criptomoedas. Foi assim que investigadores identificaram suspeitos ligados ao desvio de R$ aproximadamente 815 milhões de contas conectadas ao Banco Central. Parte do dinheiro foi convertida em ativos digitais para tentar dificultar o rastreamento.

A expansão do mercado também aproximou criptomoedas de atividades financeiras tradicionais. Hoje, fintechs oferecem serviços de câmbio digital, pagamentos internacionais e produtos baseados em blockchain. O Banco Central passou a acompanhar com atenção modelos conhecidos como “cripto as a service”, nos quais empresas usam infraestrutura de ativos digitais em serviços financeiros cotidianos.

O crescimento acelerado do setor ampliou a disputa entre velocidade tecnológica e capacidade de fiscalização do Estado. Enquanto policiais aprimoram técnicas de rastreamento digital, organizações criminosas passaram a migrar para ativos mais rápidos, plataformas descentralizadas e estruturas internacionais com menor nível de controle regulatório.

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Fonte: Revista Oeste · Por Edilson Salgueiro