Em editorial publicado neste domingo, 26, o jornal espanhol El País analisa o aumento do endividamento das famílias brasileiras e o contraste com rendimentos elevados no setor público. O texto associa indicadores econômicos recentes a episódios que, segundo o veículo, evidenciam a desigualdade no país. 

“A brutal desigualdade no Brasil é evidente em todos os lugares”, diz trecho do editorial. “Só nesta semana, ela foi cruelmente exposta. Enquanto o percentual de famílias brasileiras endividadas atingiu um novo recorde (80%) e se tornou um dos principais temas do debate eleitoral, a reação de uma juíza ao medo de perder os privilégios extravagantes da elite do funcionalismo público causou espanto. E escândalo.” 

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O texto menciona a desembargadora Eva do Amaral Coelho, do Tribunal de Justiça do Pará (TJPA). Durante sessão da 3ª Turma de Direito Penal, em 9 de abril, a magistrada afirmou: “Daqui a pouco a gente vai estar no rol daqueles funcionários que trabalham em regime de escravidão”. 

No entanto, dados  do TJPA mostram que Coelho recebeu mais de R$ 500 mil em um único mês. Os valores mais elevados da remuneração concentram-se em verbas adicionais. O maior pagamento ocorreu em dezembro de 2023. Na ocasião, a magistrada recebeu R$ 538.491,27 líquidos. O valor bruto chegou a R$ 653.149,74. 

O episódio contrasta com a realidade da maioria dos brasileiros. De acordo com o El País, um terço da renda familiar se destina ao pagamento de dívidas, enquanto 81 milhões de pessoas estão em situação de inadimplência.

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“A dívida pessoal acumulada ultrapassa 900 bilhões de dólares (equivalente a 35% do PIB brasileiro, segundo dados do Banco Central, comparado a 29% na Colômbia ou 17% no México)”, acrescentou o jornal. 

Mesmo com dados macroeconômicos considerados favoráveis, a melhora não alcança a maioria da população. O veículo menciona desemprego em nível baixo, aumento da renda média, “mas o crédito continua altíssimo, com renda básica de juros em 15% para conter a inflação”. 

Facilitação de crédito esbarra na falta de compreensão

A expansão dos serviços financeiros digitais aparece como um dos pontos centrais. Cerca de 60 milhões de brasileiros passaram a ter contas bancárias na última década, impulsionados pela internet, pelos smartphones e pelo Pix.

O acesso facilitado permite realizar pagamentos, transferências e contratar crédito com rapidez. Em contrapartida, o entendimento dos produtos financeiros ainda representa um desafio, sobretudo para parcelas da população com menor familiaridade com conceitos básicos.

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“Embora entender as letras miúdas de muitos produtos financeiros seja frequentemente um desafio até mesmo para os clientes mais instruídos em quase todos os países, em um país com grandes segmentos da população que desconhecem os conceitos mais básicos de finanças pessoais, esse desafio é enorme”, conclui. 

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Fonte: Revista Oeste · Por Luis Batistela