A organização não governamental (ONG) Instituto Conhecer Brasil, presidida pela empresária Karina Ferreira da Gama, não desembolsou recursos para a produção do filme Dark Horse, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O nome da ONG entrou no radar do Ministério Público (MP) e do Supremo Tribunal Federal (STF) depois que o ministro Flávio Dino mandou investigar repasses de emendas parlamentares destinados à Academia Nacional de Cultura, entidade presidida por Karina. A empresária também é presidente do Instituto Conhecer Brasil, que atua em projetos sociais e de inclusão digital, e é sócia da GoUp Entertainment, produtora responsável pelo filme sobre Bolsonaro. No despacho, Dino determinou que órgãos de controle apurem a execução dos recursos públicos e a relação das entidades comandadas por Karina com contratos e projetos financiados com verba federal.

O caso chegou ao STF por uma representação da deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP). De acordo com a parlamentar, o deputado federal Mário Frias (PL-SP) destinou ao menos R$ 2 milhões em emendas parlamentares à Academia Nacional de Cultura. A entidade também aparece vinculada a cerca de R$ 2,5 milhões em emendas Pix indicadas por parlamentares do PL, incluindo Bia Kicis (DF), Marcos Pollon (MS), Carla Zambelli (SP) e Alexandre Ramagem (RJ).

Parte dos recursos investigados estava associada ao projeto da série documental Heróis Nacionais — Filhos do Brasil que não se rendem, ligado à estrutura audiovisual do grupo de Karina. De acordo com informações obtidas por Oeste, contudo, Dark Horse foi estruturado exclusivamente com capital privado e investidores internacionais. O assunto que envolve o filme em homenagem a Bolsonaro veio à tona por meio de reportagens do site Intercept Brasil.

https://www.youtube.com/watch?v=XeBJnlIVNgw

Lobby empresarial

Antes da entrada da ONG, o WiFi Livre SP orbitava principalmente empresas privadas do setor de telecomunicações. Uma delas era a Surf Telecom, operadora já ligada a fases anteriores do programa municipal de conectividade. No edital de 2024, a Surf acabou rejeitada pela prefeitura, em razão de inconsistências apontadas pelo Tribunal de Contas do Município (TCM), órgão responsável pela fiscalização de contratos e serviços ligados à administração municipal.

Com o objetivo de aumentar a competitividade do edital, a prefeitura abriu espaço para entidades do terceiro setor participarem da expansão do programa. O Instituto Conhecer Brasil venceu o certame e contratou empresas especializadas para executar a parte técnica da operação. A Ultra IP Tecnologia e Serviços Ltda. foi uma das companhias responsáveis pela instalação, manutenção e suporte dos links de internet utilizados em favelas atendidas pelo programa.

Empresários ligados ao setor afirmam que a Surf, conhecida em Brasília pelo lobby no segmento de telecomunicações, pressionou pela descontinuidade do contrato do instituto com a prefeitura. Esse movimento envolveu tentativas de retirar a ONG de áreas estratégicas da expansão da rede comunitária por meio da cooptação da Ultra IP.

https://www.youtube.com/watch?v=EPIyVO_lAdU

Documentos obtidos por Oeste mostram que a articulação com a Ultra IP virou caso de polícia. Em inquérito instaurado pelo 78º Distrito Policial dos Jardins, em São Paulo, a Polícia Civil relata que o Instituto Conhecer Brasil acusou a Ultra IP de interromper cerca de 800 links de internet instalados em comunidades vulneráveis atendidas pelo WiFi Livre SP. Segundo a ONG, a Ultra IP apresentou “reiterados descumprimentos”, “inconsistências técnicas e administrativas” e resistência para corrigir problemas apontados durante a execução do contrato.

Karina Ferreira da Gama relatou à Polícia Civil uma tentativa de extorsão por parte da Ultra IP, com cobrança de aproximadamente R$ 2,5 milhões. Segundo o inquérito, a empresária afirmou ter sofrido “pressões indiretas”, ameaça de exposição midiática e divulgação de informações internas do instituto se o montante não fosse pago.

As ligações do Intercept com a Surf

O conflito empresarial ganhou novos capítulos depois que o Intercept Brasil passou a publicar a série de reportagens sobre Flávio, Vorcaro e o financiamento de Dark Horse.

Um dos autores das publicações é o jornalista Paulo Motoryn, editor do site de esquerda. Ele é parente de Mauro Motoryn, atual diretor de desenvolvimento da Surf Telecom — empresa que orbitava o ecossistema do WiFi Livre SP antes da entrada do Instituto Conhecer Brasil no programa municipal de conectividade.

Mauro atua há décadas nos bastidores dos mercados de publicidade institucional, telecomunicações e comunicação política da capital federal. Durante o primeiro governo Lula, ganhou projeção nacional no setor publicitário pela proximidade com nomes centrais do escândalo do Mensalão, como o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, o ex-presidente do Banco Popular Ivan Guimarães e o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares. Em 2008, ganhou influência em Brasília durante a disputa pelos contratos de publicidade do governo federal enquanto presidia a agência 141 Brasil Comunicação, ligada ao grupo internacional WPP. No governo Dilma Rousseff, atuou como gerente de projeto da Secretaria Nacional de Juventude.

https://www.youtube.com/watch?v=fkFLZeXg8ag&t=1538s

Em entrevistas recentes, Mauro assumiu posições políticas alinhadas ao campo da esquerda. Ao site Brasil 247, por exemplo, classificou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como “grande estrela” das Diretas Já. Em artigo publicado no site Congresso em Foco, disse ser militante desde a juventude, criticou a gestão Bolsonaro e defendeu políticas públicas inspiradas nos governos petistas.

Nos últimos anos, Mauro passou a atuar no setor de telecomunicações e hoje ocupa posição estratégica na Surf Telecom, operadora ligada a projetos de conectividade social, operadoras virtuais e expansão de internet em regiões periféricas.



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Fonte: Revista Oeste · Por Edilson Salgueiro