A foto de um portão derrubado e pisoteado por um aluno foi publicada pelo perfil do Diretório Central dos Estudantes (DCE) na sexta-feira, 8 de maio. No ato, universitários exibiam bandeiras da entidade, símbolos do chamado “movimento antifascista” e camisetas de organizações políticas, como o Partido Comunista Revolucionário (PCR). Cerca de 400 discentes ocuparam a frente do prédio da reitoria da Universidade de São Paulo (USP). Descontentes com as propostas da direção, invadiram o edifício localizado no bairro Butantã, na zona oeste da capital paulista, e depredaram parte do prédio. O objetivo do ato, classificado pelos alunos como “pacífico”, era pressionar a administração da universidade a retomar a discussão, encerrada dias antes pelo reitor da USP, Aluísio Segurado.
Durante quatro dias, o grupo manteve piquetes e barracas no local, em uma mobilização que elevou a tensão dentro do campus. No quarto dia, a situação sofreu uma reviravolta. Na madrugada do domingo 10, o prédio ficou totalmente sem luz. O fornecimento de água e energia elétrica foi cortado por policiais militares em operação para retomar o controle do edifício. Às 4h15 da madrugada, pelo menos 50 agentes desocuparam o patrimônio público. Foram apreendidas drogas e armas brancas, como facas, canivetes, estiletes, bastões e porretes, de acordo com a corporação. Quatro estudantes foram detidos e liberados no mesmo dia.
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Não é de hoje que os movimentos estudantis no Brasil, sobretudo nas universidades públicas, fundem-se com o discurso e o modus operandi da esquerda. Com bandeiras de organizações políticas, partidos e figuras representativas em suas manifestações, os estudantes utilizam-se da greve para discutir projetos políticos. União da Juventude Socialista, ligada ao PCdoB; ParaTodos (PT); Juntos! (Psol); Correnteza (Unidade Popular); Afronte! (Psol); RUA (PCB/independentes em alguns estados); UJC/MUP (PCB) são exemplos. Apesar de se esconderem sob o escudo retórico do apelo democrático, assim que contrariados paralisam as atividades acadêmicas e colocam em risco o ano letivo dos demais estudantes.
Baderna país afora
O caso da USP não é isolado. Nos últimos anos, universidades públicas brasileiras registraram sucessivas paralisações, ocupações e invasões de prédios administrativos promovidas por movimentos estudantis ligados a DCEs, centros acadêmicos e correntes políticas associadas à União Nacional dos Estudantes (UNE).
Em julho de 2024, estudantes da UERJ, no Rio de Janeiro, ocuparam a reitoria contra mudanças em bolsas e auxílios permanência. Manifestantes bloquearam acessos com móveis da universidade e montaram barricadas. A reitoria chamou o episódio de “sequestro” do prédio administrativo. A desocupação ocorreu depois de decisão judicial e ação da tropa de choque da PM.
Na UnB, em Brasília, paralisações e ocupações pontuais ocorreram ao longo de 2025 e seguiram em 2026. Alunos relataram pressão política em assembleias para adesão aos movimentos e temor de defender a manutenção do calendário acadêmico.
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Em 2024, a UFSC (Santa Catarina) e a UFRGS (Rio Grande do Sul) também registraram bloqueios de acessos, ocupações administrativas e paralisações ligadas a pautas de assistência estudantil e orçamento universitário. Em ambos os casos, as atividades acadêmicas foram interrompidas por decisões tomadas em assembleias com baixa participação proporcional ao total de estudantes.
Na Unicamp (Campinas-SP), estudantes promoveram paralisações e ocupações em 2023 e 2026 por pautas de permanência estudantil, moradia e críticas à gestão universitária. Em parte dos atos, grupos defenderam a radicalização das medidas como forma de pressão política.
Movimentos do gênero também ocorrem em universidades privadas, embora com menos frequência e intensidade. Em março e abril de 2025, por exemplo, alunos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo ocuparam espaços administrativos em protestos contra mensalidades e questões internas. O episódio terminou na Justiça, com autorização para atuação policial no campus, além de registros de pichações e danos ao patrimônio.Tais casos ilustram como parte do movimento estudantil passou a adotar métodos típicos do sindicalismo político, com paralisações, ocupações e pressão coletiva. Em muitos episódios, estudantes contrários aos movimentos relatam constrangimento e receio de expor opiniões divergentes.
Aprendizado perdido
No caso da USP, o maior impasse foi o pedido de aumento do valor do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (Papfe). Embora já estudem de graça, às custas dos pagadores de impostos, numa universidade que oferece todas as condições para a boa formação de quem realmente quer estudar, e de receber uma espécie de mesada para frequentar as aulas, não consideram o valor satisfatório. O Papfe oferece ajuda financeira mensal a estudantes em “situação de vulnerabilidade socioeconômica”, com auxílios para moradia, alimentação e manutenção acadêmica. Os alunos “exigem” que o valor mensal seja equivalente a um salário mínimo paulista, de R$ 1.804. Pedem ainda melhorias na qualidade da alimentação e das moradias (também gratuitas), redução do controle da reitoria sobre os espaços da universidade e cotas para trans e indígenas.
“Já chegamos na metade do mês de maio e o tempo de greve quase se iguala ao tempo das aulas do semestre”, disse uma estudante da USP, que discorda da paralisação e tem medo de se identificar. “Vim de outro Estado para estudar, sinto que estou desperdiçando o dinheiro que minha família paga para eu me manter em São Paulo.
Pebolim e sessão da tarde
Lar intelectual de nomes como Ruy Barbosa e de presidentes da República como Prudente de Morais, Campos Salles, Rodrigues Alves, Afonso Pena e Venceslau Brás – além da escritora brasileira Lygia Fagundes Telles –, a Faculdade de Direito da USP, também conhecida como Faculdade do Largo de São Francisco, localizada no centro da capital paulista, amanheceu o 24 de abril tomada por piquetes de cadeiras e cones de sinalização. A robusta entrada do edifício de 1930 apelidado de “Arcadas”, em alusão à presença de arcos em sua arquitetura, era vigiada por uma meia dúzia de estudantes. Estruturas de ferro serviam de bloqueio da entrada do prédio.
A reportagem de Oeste visitou o local. O prédio estava escuro, os colaboradores terceirizados limpavam o chão e permaneciam na mesa do saguão principal.
No pátio, as tradicionais rodas de conversas e uma mesa com comida e bebida. A programação da greve é publicada toda semana pelo centro acadêmico. Em um dos dias, os estudantes assistiram ao filme brasileiro O Homem que Copiava. Campeonatos de pebolim e xadrez encerravam o dia de greve.
Vereadora de São Paulo e jurista, a professora de Direito da USP Janaína Paschoal tentou ministrar suas aulas em meio à paralisação. “Um aluno me disse que queria ganhar um salário mínimo para estudar, e que isso era um direito”, acrescentou Janaína. “Conversei com eles por duas horas nos primeiros dias e deixei claro que greve é direito constitucional do trabalhador”, declarou. “Eles me responderam que o trabalho deles é estudar e que, por isso, têm direito à greve.”
Ontem, por 449 votos a 207, os alunos da Faculdade de Direito “decidiram” seguir com a “greve”. Como já disse, tomador de serviço não tem direito a greve e prédios públicos não podem ser tomados, como aconteceu com o Largo, há mais de 15 dias. Salvo melhor juízo, seria DEVER da…
— Janaina Paschoal (@JanainaDoBrasil) May 12, 2026
Durante sessão na Câmara Municipal de São Paulo, na terça-feira 12, Janaína explicou que “o tomador do serviço não tem direito à greve.”
A parlamentar também cobrou clareza sobre notas, provas e prazos. “Tive duas reuniões com a diretora da faculdade e me foi dito que era necessário dar mais tempo aos alunos”. Segundo ela, alguns alunos “correm o risco de perder o ano”.
A diretora da faculdade de Direito, Ana Elisa Liberatore Bechara, não quis responder aos questionamentos da reportagem, mas, dias depois, divulgou um comunicado em que afirma que "as atividades de extensão, bancas de defesa, concursos públicos, consultas à biblioteca e outros eventos” se mantiveram. “O semestre está irremediavelmente comprometido e os prejudicados são os próprios alunos”, disse o professor Heitor Rica.
O aluno B.F. diz não se opor às pautas estudantis, contudo, observa que a greve não garante o andamento das reivindicações. O estudante também afirma que há intimidação contra aqueles contrários à paralisação. “Como observado nos grupos de WhatsApp e em relatos de alguns colegas, toda e qualquer opinião contrária à greve é vista como aporofobia ou como descaso com as pautas estudantis”, aponta. “Então, me sinto oprimido em expor minha opinião e, com isso, sofrer algum tipo de represália.”
Quem sustenta tudo isso?
O orçamento da USP previsto para 2026 é de R$ 9,4 bilhões. A partir desse valor, a paralisação por quase 30 dias custou algo em torno de R$ 721 milhões aos cofres públicos, além dos gastos adicionais com a baderna. Somente para o programa de permanência estudantil, o Papfe, são direcionados R$ 460 milhões anuais, segundo a reitoria.
Na Unicamp, o orçamento deste ano é de 5,2 bilhões. O pró-reitor de Desenvolvimento Universitário, Fernando Sarti, informou que a parte destinada às universidades é calculada sobre arrecadação estadual líquida do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Os programas de permanência e assistência estudantil terão um orçamento de R$ 211 milhões. O valor abrange bolsas sociais, reajustadas em 5,5%, além da ampliação de bolsas de moradia e auxílio-social e manutenção de auxílios de transporte.
Na UFRJ, os recursos desse ano alcançam 6,43 bi. Depois de sofrer cortes de R$ 488 milhões no montante federal, a UFRJ teve parte da verba recomposta, mas ainda enfrenta um cenário considerado insuficiente.
Assim, conclui-se que quem sustenta a maior parte da educação pública do país é o pagador de imposto, que contribui para que todos os cidadãos tenham condições de exercer o seu direito à educação, conforme os artigos 6º e 205 da Constituição Federal.
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Este conteúdo é originalmente de Revista Oeste. Para a reportagem completa com todos os detalhes, acesse:
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Fonte: Revista Oeste · Por Lucas Cheiddi