A disputa presidencial de 2026 deve passar pela capacidade dos candidatos de conquistar o eleitorado independente, grupo formado principalmente por eleitores menos alinhados ideologicamente e que oscilaram entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro nas últimas eleições.

Segundo os analistas ouvidos pelo Estadão, o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enfrentam desafios específicos para ampliar apoio fora de seus grupos mais fiéis.

Outros nomes colocados para a disputa, como Ronaldo Caiado (União Brasil), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), também buscam espaço em um cenário ainda marcado pela polarização política.

Para os especialistas, Lula precisa convencer parte dos eleitores de que ainda pode apresentar uma agenda voltada ao futuro, em meio à percepção de desgaste ligada aos mandatos anteriores.

Maurício Moura, do Instituto Idea, afirma que pesquisas qualitativas apontam frustração entre parte dos eleitores que migraram de Jair Bolsonaro, em 2018, para Lula, em 2022.

Segundo ele, muitos esperavam melhora econômica mais rápida e hoje demonstram insatisfação principalmente com o poder de compra. “Não está claro o que vai pesar mais: a rejeição ao atual governo ou a memória ruim do governo Bolsonaro”, afirmou.

Recentemente, Ronaldo Caiado deixou o União Brasil e se filiou ao PSD; ele assume a intenção de ser candidato a presidente da República - Brasília (DF), 3/2/2026 | Foto: Reprodução/Instagram/@ronaldocaiado

Polarização segue como obstáculo

Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, avalia que parte do eleitorado independente demonstra desgaste com a polarização política e procura propostas voltadas aos próximos anos.

“O Lula precisa não só mostrar o que fez, mas principalmente o que tem para os próximos quatro anos”, afirmou.

Nos últimos meses, o governo federal intensificou o lançamento de programas ligados a renda e consumo. Integrantes da base governista apostam que essas medidas podem influenciar a avaliação do presidente nos próximos meses.

Yuri Sanches, diretor de risco político da AtlasIntel, aponta outra dificuldade para Lula: transmitir sensação de renovação política ao eleitorado.

“Falta um elemento de novidade para a eleição do Lula. O PT vai precisar combater a percepção de que se trata de um governo que o eleitor já conhece”, disse.

No campo da direita, Flávio Bolsonaro também enfrenta desafios para ampliar apoio entre eleitores independentes. Pesquisas qualitativas indicam que parte desse segmento busca perfis considerados menos polarizados.

Segundo especialistas, o senador tenta ampliar o diálogo além do núcleo tradicional do bolsonarismo e explorar o desgaste de sucessivos governos petistas.

Ao lado da deputada federal Bia Kicis, Flávio Bolsonaro participou da feira AgroBrasília nesta sexta-feira, 22 | Foto: Divulgação/Equipe de comunicação do senador Flávio Bolsonaro

Honestidade também será avaliada pelo eleitor

Outro ponto identificado nas pesquisas envolve a percepção sobre honestidade dos candidatos. Analistas apontam que suspeitas de corrupção seguem entre os principais fatores de rejeição entre eleitores independentes.

Antonio Lavareda, presidente do Ipespe, afirma que o tema representa um desafio tanto para Lula quanto para Flávio Bolsonaro.

No caso do presidente, o desgaste estaria ligado à memória de escândalos envolvendo governos petistas.

Já Flávio Bolsonaro enfrenta questionamentos relacionados a investigações passadas e à repercussão recente de um áudio divulgado envolvendo pedido de recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

“O principal atributo buscado hoje pelo eleitor independente é honestidade”, afirmou Yuri Sanches.

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante assinatura da Medida Provisória referente ao Novo Desenrola Brasil | Foto: Ricardo Stuckert/PR

Os demais nomes colocados para a disputa também enfrentam dificuldades para ganhar projeção nacional e romper a polarização entre lulismo e bolsonarismo.

Especialistas apontam que Ronaldo Caiado ainda enfrenta limitações de alcance fora do Centro-Oeste, enquanto Romeu Zema busca consolidar espaço entre eleitores que procuram renovação política.

Na avaliação dos analistas, nenhum dos nomes apresentados até agora conseguiu ocupar de forma clara um espaço alternativo ao cenário polarizado que marcou as últimas eleições presidenciais.

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Fonte: Revista Oeste · Por Luana Viana