O anúncio do governo de Donald Trump de uma possível tarifa adicional de 25% sobre parte das exportações brasileiras abriu uma nova frente de tensão comercial entre Brasil e Estados Unidos. Apesar da repercussão política da medida, os números sugerem que o impacto direto sobre a economia brasileira tende a ser mais restrito do que indicam as manchetes iniciais.

De acordo com o economista Marcos Troyjo, ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e ex-secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia, o Brasil possui hoje um perfil econômico menos dependente das exportações do que a maioria das grandes economias mundiais.

As vendas externas brasileiras, por exemplo, somaram cerca de US$ 350 bilhões em 2025, o equivalente a 13,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Nos EUA, a proporção é inferior a 7%, enquanto na Argentina gira em torno de 10% a 12%. Apenas esses dois países apresentam participação das exportações na atividade econômica menor que a brasileira dentro do G20.

O contraste é significativo, sobretudo quando comparado ao mercado norte-americano. Os EUA possuem uma economia superior a US$ 30 trilhões e importam cerca de US$ 3,7 trilhões por ano em bens e serviços produzidos no exterior. Esse volume de compras é tão grande que supera toda a riqueza gerada anualmente pela França, cuja economia movimenta cerca de US$ 3,2 trilhões, e rivaliza com a produção econômica combinada dos países africanos.

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As possíveis tarifas impostas ao Brasil

A nova sugestão tarifária surgiu depois de o governo norte-americano concluir uma investigação contra o Brasil conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). A proposta prevê uma tarifa adicional de 25% sobre parte das exportações brasileiras.

O caso brasileiro é analisado no âmbito da Seção 301 da legislação comercial dos EUA, mecanismo utilizado pelo USTR para investigar práticas comerciais de governos estrangeiros e recomendar eventuais medidas tarifárias.

Mesmo antes do anúncio, contudo, a participação brasileira nas importações norte-americanas era relativamente pequena. Segundo Troyjo, o Brasil respondia por cerca de 1% de tudo o que os EUA compravam do exterior, o equivalente a aproximadamente US$ 37 bilhões por ano.

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As investigações conduzidas pelo USTR não se limitam ao Brasil. Países como China, Índia, México, Taiwan e os integrantes da União Europeia são alvo de apurações relacionadas ao que Washington classifica como excesso de capacidade industrial em determinados setores. Há ainda investigações que envolvem denúncias de trabalho forçado e procedimentos mais amplos dirigidos a parceiros considerados estratégicos pelos EUA, incluindo Coreia do Sul, China, Nicarágua e Vietnã. O Brasil integra esse último grupo.

A principal questão para os exportadores brasileiros é saber qual parcela efetiva das vendas aos EUA poderá ser atingida caso as investigações resultem em novas medidas tarifárias. Em valores absolutos, representa cerca de US$ 9,5 bilhões.

Sem crise

O número ganha outra dimensão quando comparado ao tamanho da economia brasileira. Segundo a estimativa do economista, o universo potencialmente afetado corresponde a aproximadamente 2,7% das exportações totais do Brasil e a cerca de 0,36% do PIB nacional.

Os percentuais ajudam a explicar por que parte dos especialistas diferencia os efeitos políticos da medida dos seus efeitos econômicos. O anúncio de uma tarifa de 25% possui peso diplomático e pode gerar impactos relevantes para setores específicos, empresas exportadoras e cadeias produtivas com maior exposição ao mercado norte-americano. Em escala macroeconômica, entretanto, os números indicam uma exposição mais limitada.

Para Troyjo, a controvérsia também evidencia um problema mais amplo: o baixo aproveitamento do potencial econômico existente entre as duas maiores economias do Hemisfério Ocidental. “O comércio Brasil-EUA é um case exemplar de deseconomia, subdesempenho e oportunidades desperdiçadas”, afirma.

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Fonte: Revista Oeste · Por Edilson Salgueiro