A combinação entre a guerra envolvendo Estados Unidos e Irã, o risco de um El Niño potencializado, o aumento dos gastos públicos em ano eleitoral e o mercado de trabalho aquecido levou o mercado financeiro a revisar fortemente as projeções para a inflação de 2026.
Segundo o último Boletim Focus do Banco Central (BC), divulgado nesta segunda-feira, 8, a expectativa para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medidor oficial da inflação no Brasil, subiu para 5,11%, acima do teto da meta de 4,5%. Em 27 de fevereiro, véspera do início do conflito no Oriente Médio, a estimativa era de 3,91%.
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A disparada das projeções ocorreu em paralelo à valorização do petróleo no mercado internacional. O encarecimento da commodity elevou os riscos para combustíveis, fertilizantes e alimentos, ao mesmo tempo em que aumentou as dúvidas sobre a continuidade do ciclo de redução da taxa Selic, atualmente em 14,5% ao ano.
No mercado, cresce a avaliação de que o Comitê de Política Monetária (Copom) poderá interromper os cortes de juros antes do encerramento do ano.
O petróleo afeta os preços dos alimentos por diferentes canais. O primeiro é o aumento do diesel, que encarece o transporte de mercadorias e a operação de máquinas agrícolas. O segundo envolve os fertilizantes derivados de petróleo e gás natural, cujo custo impacta diretamente a produção rural.
O risco de um super El Niño também preocupa. Caso o fenômeno climático se confirme, secas e chuvas intensas poderão prejudicar safras agrícolas e pressionar ainda mais os preços. Os efeitos mais acentuados do fenômeno climático estão previstos para ir de novembro a janeiro de 2027.
Dados recentes indicam que a pressão já se espalha para outros segmentos da economia. O IPCA-15, que mede o resultado parcial do IPCA, mostrou que a inflação dos alimentos consumidos em casa passou de 0,82% para 2,26% no acumulado de 12 meses até maio. Os serviços também voltaram a acelerar, com alta de 6,16% no mesmo período.
Reação do Copom à inflação permanece foco de dúvida no mercado
Para Rafaela Vitoria, economista-chefe do banco Inter, a expansão dos gastos públicos tem papel central nesse movimento. Ela elevou sua projeção para o IPCA de 4,9% para 5,1%.
A economista cita uma série de medidas que ampliaram a circulação de recursos na economia, entre elas o aumento do salário mínimo, o desconto do Imposto de Renda, a redução da fila do INSS, a antecipação de precatórios e programas de crédito. Segundo ela, o aumento da demanda facilita o repasse de custos para os preços finais.
“Os estímulos pesam mais, o choque de oferta provocado pelo petróleo se dissipa”, afirmou. Na avaliação de Rafaela, uma política fiscal mais alinhada à política monetária ajudaria a conter a inflação, mas essa possibilidade se torna remota em ano eleitoral.
O C6 Bank também revisou suas estimativas, com alta na projeção do IPCA de 4,8% para 5%. Para o economista-chefe da instituição, Felipe Salles, a persistência das pressões inflacionárias decorre principalmente da força do mercado de trabalho e do avanço dos preços dos serviços.
“Os preços de serviços aceleraram, sustentados por um desemprego que tende a se manter em níveis historicamente baixos", afirmou. "Além disso, o conflito no Oriente Médio traz um risco adicional para a inflação deste ano, dada a possível alta nos preços de combustíveis e alimentos.”
A principal incerteza agora está na condução da política monetária. O mercado passou a projetar uma Selic de 13,25% ao fim de 2026. Na véspera da guerra entre Estados Unidos e Irã, a expectativa era de que a taxa básica encerrasse o ano em 12%.
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Fonte: Revista Oeste · Por Isabela Jordão