O início da guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã uniu dois objetivos diferentes no combate a um inimigo comum: impedir que Teerã desenvolvesse capacidade nuclear militar. Com o decorrer dos acontecimentos, porém, certas diferenças entre os aliados passaram a aparecer, sobretudo no momento de definir os termos de um cessar-fogo.

+ Leia mais notícias de Mundo em Oeste

Logo depois do início da ofensiva, em fevereiro, o Irã respondeu com lançamentos de mísseis e drones contra Israel e bases norte-americanas no Golfo Pérsico. Alvos nos Emirados Árabes Unidos, no Bahrein, no Kuwait e em outras áreas da região também foram afetados pela escalada. A reação iraniana ajudou a revelar o atual mapa geopolítico do Oriente Médio e evidenciou o grau de isolamento regional de Teerã, apesar do discurso oficial de vitória adotado pelo regime. Ao mesmo tempo, expôs as perdas significativas sofridas pelo país em sua capacidade militar.


Com a continuidade do conflito, o foco principal deixou de ser exclusivamente o programa nuclear iraniano e passou a incluir outros temas estratégicos: o controle e a segurança do Estreito de Ormuz; a presença militar norte-americana no Golfo; o papel do grupo terrorista Hezbollah no Líbano; o futuro das sanções contra o Irã; e a liberação de cerca de US$ 24 bilhões em ativos iranianos congelados, uma das principais exigências de Teerã nas negociações.

A Oeste, o professor israelense Menahem Merhavi, especialista em assuntos do Oriente Médio da Universidade Hebraica de Jerusalém, afirma que a retomada, nesta semana, dos combates — primeiro por parte de Israel e, posteriormente, pelos EUA, quando já se desenhava um impasse entre os governos de Benjamin Netanyahu e Donald Trump — demonstra que a aliança entre os dois países permanece sólida, mesmo diante de prioridades distintas. Confira.

Como o senhor avalia os resultados da guerra iniciada em fevereiro?

Não acho que haja vencedores e perdedores da maneira que todo mundo procura. Na mídia, acredito que podemos falar sobre algumas conquistas e também sobre algumas limitações dessas conquistas, pelo menos do lado norte-americano. Por um lado, o Irã foi humilhado, e suas capacidades militares foram definitivamente danificadas. Seu programa nuclear, aparentemente, também foi afetado, pelo menos por alguns anos. Ainda assim, o resultado não é perfeito. Não há garantias de que a questão do urânio esteja controlada.

Qual fator levou o Irã a cantar vitória até este momento?

Eu diria o seguinte: o principal problema foi que o Irã sentiu — e até agora parece estar correto — que os EUA não se mostravam dispostos a assumir o risco de reabrir o Estreito de Ormuz pela força. Nessa situação, isso dá ao Irã uma margem significativa de influência em relação aos EUA. Não é algo sem custo, porque o próprio Irã também está pagando um preço muito alto por isso. Mas sua disposição para suportar sofrimento aparentemente talvez seja até maior do que a dos EUA e de outros países nesse aspecto.

O senhor acredita que, neste sentido, o Irã transmite uma imagem de vencedor enquanto tenta ganhar tempo?

Concordo com essa visão. Além disso, há outra vantagem que o Irã possui: controla a mídia em seu próprio país, ao contrário do Ocidente. Portanto, não enfrenta os mesmos obstáculos políticos e de opinião pública que o presidente Trump enfrenta, porque o regime controla a narrativa interna. Sobre os objetivos da guerra, há um problema sério, porque o Estreito de Ormuz foi fechado. E, nesse ponto, acredito que os EUA cometeram dois erros táticos.

Quais foram os erros táticos na sua opinião?

O primeiro foi não ter bloqueado o estreito desde o primeiro dia. Eles deveriam ter feito isso desde o início da guerra. Era inconcebível que o Irã continuasse enviando e exportando produtos através do estreito enquanto o restante do mundo não podia fazê-lo. Os norte-americanos corrigiram isso apenas mais tarde. O segundo erro, como mencionei, foi a relutância dos EUA em reabrir o estreito pela força. Isso não ocorre apenas por falta de vontade norte-americana, mas também porque Washington está relativamente isolado em relação aos seus aliados históricos e não conta com amplo apoio internacional.

Por que a vitória dos norte-americanos não foi contundente como se esperava até agora e a guerra ainda se estende?

Acredito que a ausência dos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) tenha um peso definitivo para isso. São aliados históricos dos EUA. O que eu gostaria de ter visto seria uma força conjunta dos EUA com outros países, como os membros da Otan, para retirar esse trunfo das mãos do Irã. Como isso não aconteceu, o Irã manteve uma importante ferramenta de pressão.

Em relação à capacidade nuclear iraniana, ela ainda existe?

Quanto à questão nuclear, ainda é cedo para saber. Nós simplesmente não sabemos. Não sabemos em que grau o programa foi danificado. Não sabemos quão difícil será para o Irã recuperar acesso a urânio. Aparentemente, isso ainda é possível.

Como Israel está vendo a abordagem de negociação de Trump, incluindo sua sugestão recente de que o Irã poderia eventualmente aderir aos Acordos de Abraão?

Sobre a possibilidade de o Irã aderir aos Acordos de Abraão, não considero isso algo sério. Não acho realista imaginar um acordo entre Irã e Israel. Mesmo um acordo entre Irã e EUA, como vimos, não é algo gravado em pedra. Portanto, não considero séria a ideia de uma aproximação entre Irã e Israel. A hostilidade contra Israel e contra os EUA é parte integrante da ideologia do regime iraniano. Não acredito que isso vá mudar tão cedo. Devemos abandonar esse tipo de expectativa.

Para o Irã, quem é o principal inimigo: Israel ou os EUA?

Para o Irã, Israel é visto como um pequeno representante dos EUA, nada além disso. Eles têm uma história muito mais longa de animosidade com os EUA do que com Israel. Isso começa com a Revolução Islâmica e até mesmo antes dela. Israel, apesar de ser visto como grande inimigo, não foi o núcleo da agenda iraniana durante todo esse período. Os EUA estiveram praticamente desde o primeiro dia. Se falamos em duração histórica do conflito, os EUA ocupam uma posição mais central. Além disso, possuem capacidade muito maior de causar danos ao Irã. No momento da guerra, porém, não acredito que o regime iraniano faça uma distinção tão grande entre os dois. Aos olhos de Teerã, são dois parceiros inseparáveis quando se trata da política em relação ao Irã.

Leia também: "O estudante e o soldado", reportagem de Eugenio Goussinsky publicada na Edição 318 da Revista Oeste

Para Israel, porém, o Irã é visto como um inimigo mais ameaçador do que para os EUA, concorda?

Diria que sim. Claro que, para Israel, o Irã representa uma ameaça existencial de uma forma que não representa para os EUA, pelo menos não de maneira imediata. Por isso, Israel gostaria de ver ações mais contundentes contra o Irã, enquanto os EUA possuem menos urgência nesse sentido. Eles estão alinhados, mas não compartilham exatamente o mesmo grau de urgência.

Durante a Guerra dos 12 Dias, em junho de 2025, Israel declarou que grande parte das capacidades militares e nucleares do Irã havia sido destruída. Isso foi um erro de cálculo ou a promoção de uma narrativa irrealista?

Acredito que houve um certo exagero durante a guerra de junho passado. Não diria que foi um erro de avaliação puramente intelectual. Vejo isso mais como um exagero motivado por razões políticas.

Até que ponto o Irã poderia mudar sua política para o Oriente Médio mesmo sem uma mudança de regime?

Não devemos esperar uma grande mudança na política externa iraniana em meio a uma guerra. Enquanto o regime permanecer no poder — e eu não vejo mudança de regime no futuro próximo — não espero alterações fundamentais. No entanto, o Irã sairá enfraquecido nos próximos meses e talvez nos próximos anos. Terá de reconstruir suas capacidades militares. Estará mais isolado do que antes. E seus vizinhos árabes não esquecerão os ataques sofridos durante a guerra. Na verdade, sabemos que alguns deles já foram empurrados para mais perto de Israel.

Nos últimos dias, os confrontos recrudesceram. Israel e Hezbollah prosseguiram os combates, o Irã atacou Israel, que revidou, e, no dia seguinte, os EUA, mesmo com pedido para Israel não atacar, realizaram bombardeios no Irã. Até que ponto há divergência entre Israel e EUA e qual a estratégia do Irã em prosseguir o confronto?

Não acredito que Israel possa atacar o Irã — ou venha a atacar o Irã — sem algum grau de aprovação dos EUA. Não vejo atuação de Israel de maneira completamente independente nesse sentido. Além disso, ainda estamos diante do que poderia ser chamado de ataques limitados de ambos os lados, enquanto se tenta preservar algum tipo de estrutura de negociação entre os EUA e o Irã, que quer passar a imagem de que não recua. Somente quando soubermos se haverá ou não um acordo entre Washington e Teerã poderemos avaliar a possibilidade de uma expansão significativa das hostilidades.

Como um cessar-fogo pode ser definitivo?

Uma das questões mais interessantes será observar até que ponto Israel ficará comprometido, mesmo informando aos EUA, com um eventual acordo entre os EUA e o Irã. Pode haver algum combate a mais, mas, no fim das contas, acredito que Israel terá de se conformar com aquilo que os EUA aceitarem. Há consultas constantes entre Washington e Jerusalém, mas a decisão final será de Trump, não de Netanyahu.

O post ‘EUA é que definirão o fim da guerra’, diz especialista israelense apareceu primeiro em Revista Oeste.

📰 Leia a reportagem completa
Este conteúdo é originalmente de Revista Oeste. Para a reportagem completa com todos os detalhes, acesse:
https://revistaoeste.com/mundo/eua-e-que-definirao-o-fim-da-guerra-diz-especialista-israelense/

Fonte: Revista Oeste · Por Eugenio Goussinsky