A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, nesta quarta-feira, 27, adiou novamente o debate sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que reduz de 18 para 16 anos a maioridade penal no Brasil. A análise deve ser retomada somente depois do feriado de Corpus Christi, marcado para 4 de junho.

Apresentada em 2015 pelo então deputado Gonzaga Patriota (PSB-PE), a proposta altera dispositivos da Constituição Federal que tratam da inimputabilidade penal de menores de idade. Atualmente, apenas maiores de 18 anos podem responder criminalmente como adultos.

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O pedido de vista, solicitado por Erika Kokay (PT-DF), Orlando Silva (PCdoB-SP), Sâmia Bomfim (Psol-SP) e Talíria Petrone (Psol-RJ), garantiu mais tempo para discussão do tema. O relator da proposta é o deputado Coronel Assis (PL-MT), que assumiu o texto protocolado originalmente em 2015.

Sessão da CCJ da Câmara dos Deputados | Foto: Will Shutter/Câmara dos Deputados

A eventual aprovação na CCJ representa apenas a primeira etapa da tramitação. Se receber aval do colegiado, a PEC seguirá para uma comissão especial e, posteriormente, para o plenário da Câmara, onde precisará de ao menos 308 votos favoráveis em dois turnos. Na sequência, o texto ainda terá de passar pelo Senado.

O debate jurídico em torno da proposta concentra-se na interpretação do artigo 228 da Constituição, que estabelece a inimputabilidade penal dos menores de 18 anos. Há divergência entre especialistas sobre a possibilidade de alteração do dispositivo por meio de emenda constitucional.

O advogado criminalista Joabs Sobrinho afirma que a discussão envolve um dos temas mais complexos do Direito Constitucional e Penal brasileiro. Segundo ele, parte dos juristas entende que o artigo 228 configura cláusula pétrea e, portanto, não poderia ser modificado pelo Congresso.

Presidente da Câmara, Hugo Motta, fez um apelo ao relator da PEC da Segurança Pública, Mendonça Filho (dir.), para retirar o trecho da redução da maioridade penal | Foto: Marina Ramos/Câmara dos Deputados

Outra corrente, contudo, sustenta que a regra pode ser alterada pelo Legislativo. “O critério biológico adotado na década de 1980 não reflete mais a capacidade de discernimento do jovem atual, que já goza do direito ao voto aos 16 anos e possui plena consciência da ilicitude de seus atos”, explicou Sobrinho.

O advogado também disse que o avanço do crime organizado tem impulsionado propostas de endurecimento penal. “O crime organizado utiliza deliberadamente a menoridade penal como uma blindagem jurídica, colocando adolescentes na linha de frente do tráfico e da execução de crimes graves.”

Sobrinho criticou ainda a limitação das medidas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Segundo ele, o teto de três anos de internação para atos infracionais graves contribui para a sensação de impunidade.

“O Estatuto da Criança e do Adolescente, ao fixar o teto de três anos de internação socioeducativa mesmo para os atos infracionais mais violentos, como homicídio doloso e latrocínio, gera na sociedade e nas próprias forças de segurança uma percepção severa de impunidade”, afirmou o jurista.

Penitenciária Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte | Foto: Portal gov.br/Divulgação

A PEC discutida atualmente busca alternativas intermediárias, restringindo a responsabilização penal de adolescentes de 16 e 17 anos a crimes violentos ou contra a vida.

Segundo o texto, jovens de 16 ou 17 anos condenados nessas condições deverão cumprir pena em alas separadas dos adultos. O texto determina ainda que eles fiquem isolados dos adolescentes envolvidos em delitos de menor gravidade, que seguem as normas do ECA.

“Independentemente do desfecho das votações no Congresso Nacional, a palavra final sobre a legalidade dessa transformação caberá inevitavelmente ao Supremo Tribunal Federal”, ressaltou.

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Sessão plenária do STF | Foto: Antonio Augusto/STF

Combate ao crime exige mais que a redução da maioridade penal

Na avaliação do advogado criminalista Guilherme Gama, a discussão sobre a redução da maioridade penal também envolve a análise prática dos efeitos do endurecimento das penas no combate à criminalidade. Segundo ele, a experiência brasileira demonstra que o simples aumento do rigor penal não garante, necessariamente, a diminuição dos índices de violência.

Gama afirmou que o sistema penitenciário nacional enfrenta problemas estruturais graves, marcados por superlotação, precariedade e influência de facções criminosas. Para o advogado, a inclusão de adolescentes nesse ambiente pode produzir consequências contrárias às pretendidas pelo poder público, com a ampliação da vulnerabilidade dos jovens e favorecimento de sua cooptação pelo crime organizado.

Ao mesmo tempo, o criminalista reconheceu que existe uma preocupação legítima da sociedade diante de crimes cometidos com extrema violência por menores. “O Estado tem o dever de oferecer resposta firme e eficaz, tanto para assegurar a responsabilização do infrator quanto para garantir proteção às vítimas e à coletividade”, disse.

Segundo Gama, embora o debate sobre a redução da maioridade penal seja juridicamente legítimo, sua eficácia como política criminal permanece incerta. "O enfrentamento do problema exige, simultaneamente, responsabilização adequada, fortalecimento do sistema socioeducativo e políticas públicas capazes de reduzir as causas estruturais da criminalidade", concluiu.

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Fonte: Revista Oeste · Por Isabela Jordão