A guerra entre Rússia e Ucrânia chega a uma marca histórica. O conflito já ultrapassou o período de quatro anos e superou em duração a 1ª Guerra Mundial. O conflito entre os países é uma das guerras mais longas e destrutivas da história contemporânea da Europa. Sem perspectivas concretas de encerramento, o confronto continua a produzir milhares de vítimas, deslocamentos em massa e uma crescente disputa diplomática em torno das condições para um eventual acordo de paz.

Em entrevista exclusiva a Oeste, o encarregado de Negócios e ministro-conselheiro da Embaixada da Ucrânia no Brasil, Oleg Vlasenko, afirmou que Kiev não admite qualquer concessão territorial à Rússia. Ele responsabilizou diretamente o presidente russo, Vladimir Putin, pelo impasse nas negociações. 

A guerra entre os países começou em 24 de fevereiro de 2022, quando Putin anunciou uma 'operação militar especial' e invadiu a Ucrânia | Foto: Reprodução/Shutterstock

Segundo Vlasenko, a Ucrânia aceita discutir um cessar-fogo ao longo das atuais linhas de combate. Entretanto, o país rejeita reconhecer como russos territórios ocupados, como a Crimeia e a região de Lugansk: “Não haverá concessões territoriais”.

Vlasenko também defendeu que a guerra ultrapassa a questão territorial e envolve a preservação de um princípio fundamental da ordem internacional: a impossibilidade de alterar fronteiras pela força. O diplomata ainda cobrou maior engajamento do Brasil em iniciativas humanitárias, como a libertação de prisioneiros de guerra e o retorno de crianças ucranianas levadas para territórios sob controle russo, além de lamentar o encerramento do programa brasileiro de acolhimento humanitário para refugiados ucranianos no fim de 2025.

Prédio atingido por míssil russo, depois de bombardeio à capital da Ucrânia, Kiev | Foto: Reprodução/X/Dmytro Kuleba

Entrevista com o diplomata da Ucrânia

A seguir, os principais trechos da entrevista com Oleg Vlasenko.

Depois de mais de quatro anos de guerra, qual é a percepção da Ucrânia sobre a maneira como o restante do mundo encara o conflito com a Rússia? Tornou-se um assunto “normalizado” ou o Ocidente continua preocupado?

A Ucrânia, como vítima da agressão russa, naturalmente busca mais solidariedade da comunidade internacional. Muitos países continuam apoiando nossa integridade territorial e fornecendo assistência financeira e militar. O Brasil se absteve em votações importantes da ONU, e naturalmente gostaríamos de contar com seu apoio. Também buscamos maior participação brasileira em iniciativas humanitárias, como o retorno de prisioneiros de guerra e de crianças sequestradas pelo exército russo. Gostaríamos de ver mais ações de solidariedade com o povo ucraniano. O encerramento do programa de acolhimento humanitário para ucranianos no Brasil, no fim de 2025, representou o fim de um dos maiores gestos de apoio do país durante a guerra.

A Ucrânia teme que outras crises e guerras internacionais acabem desviando atenção política, recursos e apoio militar do conflito contra Putin?

Não há medo, mas uma compreensão clara de que o mundo se tornou mais perigoso. A impunidade de Putin depois de as primeiras agressões à Ucrânia estimulou outros regimes a acreditarem que disputas territoriais podem ser resolvidas pela força. Também levamos em consideração os impactos de outras crises internacionais. A guerra no Oriente Médio, por exemplo, contribuiu para a escassez de mísseis interceptadores usados na Defesa aérea ucraniana. As consequências são sentidas diretamente pela população civil. Desejamos que esta guerra termine para que mais recursos possam ser direcionados a outras crises humanitárias e sociais ao redor do mundo.

Parte de Kiev ficou sob escombros depois de um ataque russo em março deste ano | Foto: Reprodução/X/@ZelenskyyUa

A Ucrânia luta hoje apenas por seu território ou também por um princípio mais amplo: o de que nenhum país pode redesenhar fronteiras pela força?

É claro que a Ucrânia luta não apenas para preservar sua própria integridade territorial, mas também para preservar o princípio fundamental do Direito Internacional da inviolabilidade das fronteiras e a proibição do uso da força para alterá-las. Para nós, é importante que situações de anexação de territórios e invasões não ocorram em outras regiões do mundo. Tudo isso só contribui para o aumento do número de guerras e problemas econômicos. Por isso, a Ucrânia, na região da América Latina e do Caribe, reagiu e reagirá contra quaisquer ameaças e provocações do governo da Venezuela contra a soberania e a integridade da Guiana. É do interesse de todos os povos da América Latina que a Venezuela jamais consiga concretizar suas ameaças e que a paz na região seja preservada.

Desde que tomou posse, Donald Trump prometeu acabar com a guerra. Qual é hoje o estágio das negociações e quais são os principais obstáculos para um cessar-fogo?

O governo de Donald Trump contribuiu para o avanço das negociações e para resultados humanitários importantes. Mais de 2 mil prisioneiros de guerra e civis ucranianos retornaram do cativeiro russo. O principal obstáculo continua sendo a posição da Rússia. Putin exige que a Ucrânia ceda territórios das regiões de Donetsk e Lugansk, algo que não aceitaremos. O caminho mais rápido para a paz é um cessar-fogo na atual linha de contato, seguido por negociações e pela assinatura de um acordo de paz.

Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e o presidente dos EUA, Donald Trump, durante encontro na Flórida | Foto: Reprodução/Youtube/Casa Branca

Atualmente, existe alguma possibilidade de negociação que envolva concessões territoriais por parte da Ucrânia?

Não. Não haverá concessões territoriais. A Ucrânia jamais reconhecerá Lugansk ou a Crimeia como território russo, mesmo que atualmente 90% dessas regiões estejam sob controle das forças russas. Desde março de 2025, oferecemos um cessar-fogo ao longo da linha de batalha e negociações de paz. Mas qualquer acordo não incluirá a renúncia da Ucrânia aos seus territórios ocupados.

O presidente Volodymyr Zelensky alertou para a escassez de mísseis antibalísticos e para as dificuldades na defesa aérea. O que exatamente a Ucrânia precisa hoje para proteger suas cidades e sua população?

Acima de tudo, a Ucrânia precisa de sistemas de defesa antimísseis e de mísseis interceptadores para proteger a população civil e a infraestrutura crítica. Em 2025, a Rússia lançou mais de 60 mil bombas guiadas, cerca de 2,4 mil mísseis e mais de cem mil drones contra a Ucrânia. Precisamos de mais de 2 mil mísseis interceptadores por ano para proteger vidas. Também estamos desenvolvendo projetos em parceria com países europeus para fortalecer nossa capacidade de defesa e reduzir vulnerabilidades futuras.

Zelensky busca um cessar-fogo sem concessão de territórios da Ucrânia | Foto: Reprodução/X/Volodymyr Zelensky

A Ucrânia também ampliou as operações contra alvos no território russo e em áreas ocupadas. Como o governo ucraniano diferencia os ataques contra a infraestrutura militar de ações que podem atingir civis?

A Ucrânia tem todo o direito de se defender contra a agressão russa. Estamos fazendo todo o possível para reduzir a capacidade da Rússia de financiar e sustentar a guerra, ao mesmo tempo em que adotamos precauções para proteger civis, tanto em territórios ocupados quanto em território russo. Ao contrário da Rússia, que ataca deliberadamente cidades e áreas residenciais, a Ucrânia tem como alvo infraestrutura militar utilizada para sustentar os ataques contra nosso país.

Como é a vida na Ucrânia hoje, depois de mais de quatro anos sob ataques constantes? Qual é o principal drama humanitário enfrentado pela população?

Uma guerra em grande escala que já dura mais de quatro anos mudou profundamente a vida da maioria dos ucranianos. Hoje, mais de 6 milhões de cidadãos vivem fora do país e outros 4,2 milhões são deslocados internos. Muitas pessoas perderam suas casas, empregos e precisaram reconstruir suas vidas em outras regiões. O governo mantém programas de apoio à população e de reconstrução, mas o maior problema continua sendo a perda de vidas humanas.

Como a Ucrânia avalia a posição do governo Lula diante da guerra? Existe algum grau de frustração com declarações ou posicionamentos adotados pelo presidente brasileiro?

A Ucrânia e o Brasil mantêm diálogo constante. Os ministros das Relações Exteriores de seus respectivos países se comunicam regularmente, e o último encontro entre os presidentes Lula e Zelensky ocorreu em setembro de 2025. Gostaríamos de ver um maior envolvimento do Brasil em iniciativas que produzam resultados concretos, especialmente na libertação de prisioneiros de guerra e no retorno de crianças ucranianas sequestradas pelo exército russo. Também seríamos gratos por qualquer apoio humanitário que pudesse ajudar a população ucraniana a enfrentar os desafios causados pela guerra.

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Fonte: Revista Oeste · Por Sarah Peres