O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) compromete direitos fundamentais de cidadãos e advogados ao limitar sustentações orais em julgamentos virtuais, diz editorial publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo neste domingo, 14. A regra, diz o texto, "tem tapado os ouvidos dos magistrados às demandas dos jurisdicionados — no caso, os cidadãos".

Segundo o texto, a Resolução nº 591, em vigor há mais de um ano, criou barreiras à atuação da advocacia e reduziu a participação efetiva das partes nos processos analisados por órgãos colegiados.

+ Leia mais notícias da Imprensa em Oeste

A norma estabelece regras mínimas para julgamentos em ambiente eletrônico nos tribunais estaduais, regionais e superiores. Pelo modelo, cabe ao relator definir se um processo será analisado presencialmente ou em sessão virtual assíncrona.

O ministro Alexandre de Moraes observa o advogado Jeffrey Chiquini, durante sustentação oral no STF | Divulgação/STF

Nesses casos, os magistrados registram seus votos em plataforma digital, enquanto os advogados podem enviar sustentações orais em arquivos de áudio ou vídeo.

A medida foi apresentada sob o argumento de aumentar a eficiência e a celeridade da Justiça. O editorial reconhece que a informatização pode contribuir para modernizar o Judiciário e acelerar a tramitação processual, mas argumenta que tais objetivos vêm sendo alcançados com prejuízo a garantias asseguradas pela legislação e pela Constituição.

“O advogado é indispensável à administração da Justiça”, ressalta o texto, ao sustentar que a resolução restringe o direito de manifestação da advocacia e reduz sua capacidade de influenciar o convencimento dos julgadores.

O jornal cita artigo do advogado Antonio Cláudio Mariz de Oliveira, publicado em fevereiro, no qual ele relata dificuldades crescentes para o exercício da profissão. Segundo Mariz, há magistrados que deixam de analisar petições, transferem atribuições a assessores e evitam receber advogados. Em um dos episódios narrados, um juiz teria afirmado que “o advogado atrapalha”.

Constituição da República Federativa do Brasil colocada sobre um mapa do Brasil (15/2/2026) | Foto: Shutterstock

O editorial observa ainda que diversos tribunais reproduziram o modelo adotado pelo CNJ em regulamentações próprias, ampliando os efeitos da resolução. Em reação, a seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP) encomendou pareceres jurídicos para embasar questionamentos contra a norma.

De acordo com o professor titular sênior da Faculdade de Direito da USP, José Rogério Cruz e Tucci, a resolução viola princípios como a oralidade e a publicidade dos julgamentos. Citado pelo Estadão, ele afirma que o sistema torna as decisões menos transparentes e reduz o colegiado a um “agregado aritmético” de votos.

Na avaliação do jurista, a defesa deixa de atuar em um ambiente efetivamente dialógico e passa a se dirigir a julgadores que muitas vezes já formaram entendimento sobre o caso.

O presidente da OAB-SP, Leonardo Sica | Foto: Divulgação/OAB-SP

O jornal sustenta que a limitação das sustentações orais compromete a ampla defesa e o contraditório, garantias previstas na Constituição. Também destaca declaração do presidente da OAB-SP, Leonardo Sica, segundo a qual os magistrados “fingem que escutam” e os advogados “fingem que falam”, uma vez que não há garantia de que os arquivos enviados sejam efetivamente assistidos ou ouvidos.

Para o Estadão, os processos que contestam a resolução e aguardam análise do CNJ representam uma oportunidade para rever a medida. O editorial reconhece que o Judiciário enfrenta desafios expressivos, entre eles um orçamento anual próximo de R$ 150 bilhões e um acervo de cerca de 80 milhões de processos.

Ainda assim, argumenta que a busca por maior rapidez não pode resultar na supressão de direitos processuais. “Quando um advogado não é ouvido pela Justiça, é o cidadão que é ignorado”, conclui o texto. “Justiça cega é justiça imparcial, mas Justiça surda é justiça injusta.”

O post CNJ transforma julgamento em ‘encenação’, diz Estadão sobre sessões virtuais apareceu primeiro em Revista Oeste.

📰 Leia a reportagem completa
Este conteúdo é originalmente de Revista Oeste. Para a reportagem completa com todos os detalhes, acesse:
https://revistaoeste.com/imprensa/cnj-transforma-julgamento-em-encenacao-diz-estadao-sobre-sessoes-virtuais/

Fonte: Revista Oeste · Por Isabela Jordão