Ontem comemoramos o famigerado “Dia dos Namorados”, as vitrines neste fim de semana estarão especialmente decoradas em tons de vermelho, os restaurantes cobrarão fortunas por jantares à luz de velas e as redes sociais serão inundadas por declarações de amor meticulosamente editadas para o consumo público. Aliás, mais uma função inadiável para as inteligências artificiais: serem poetas de amores alheios.
Dessa forma, o Dia dos Namorados cumpre seu rito anual na convenção social do Ocidente. No entanto, por trás da névoa de sentimentalismo de proveta e da blitz comercial de bombonieres, esconde-se uma realidade incômoda: nunca fomos tão incapazes de amar — de verdade, eu digo.
O namoro moderno, esvaziado de seu propósito ancestral, tornou-se um fim em si mesmo — um estágio de transição perpétua que celebra o provisório e rejeita o permanente. É preciso, portanto, aproveitar tal efeméride para fazer um diagnóstico cru dos nossos costumes e propor a única saída viável contra a neurose contemporânea: a reabilitação urgente do casamento, esse sim um estágio a ser celebrado.
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A modernidade operou uma sutil e perversa transformação nos relacionamentos: ela os transformou em extensões do mercado de consumo e uma maquiagem pesada sobre as futilidades niilistas e egoístas de nossos dias. O ser humano, outrora visto como um mistério a ser desvendado e um destino a ser assumido, foi rebaixado à categoria de mercadoria em um cardápio digital. Ou pior, um status, uma coisa para servir de enfeite em redes sociais.
Os aplicativos de relacionamento criaram a falsa sensação de que sempre há algo melhor a um deslize de dedo de distância. O outro não é mais um companheiro de provações, mas um objeto de satisfação imediata. Namoro tornou-se uma condição e não um estágio.
"Namoro" sem compromisso
E como o homem moderno não tolera o tédio, a imperfeição ou a dor, qualquer sinal de desgaste na relação é justificativa para o descarte. Foge-se do conflito como quem foge de um produto defeituoso. E assim, tal como sacolas da Shein ou latas de Brahma, namorados e namoradas se entulham em nossas biografias.
O “namoro” sem compromisso de futuro tornou-se, assim, o refúgio dos covardes. Permite que o indivíduo desfrute dos bônus da intimidade biológica e afetiva sem ter de arcar com o ônus da responsabilidade moral. E para não ficar dúvidas quanto à minha afirmação anterior, reafirmo de novo: hoje, na grande maioria das vezes, o namoro não passa de um contrato de serviço sexual e afetivo com data de validade pré-acordada.
O resultado dessa dinâmica é o isolamento, a ansiedade e uma profunda anemia espiritual. Cercados de conexões, os jovens habitam um deserto de significados. Beijos não têm mais o mesmo peso simbólico de antes, o sexo que era o ápice da intimidade, se torna petisco de final de tarde, a fidelidade que conjurava o dever de permanecer e a segurança de um conforto duradouro, perdeu espaço para o trisal e para a traição gourmetizada.
Reabilitar o casamento, todavia, não significa defender uma convenção burguesa ou um contrato de felicidade idílica. O casamento real — aquele que resiste ao tempo — é uma instituição trágica, sacrificial e, por isso mesmo, redentora. Não é um quadro mal impresso na parede da cozinha de nossas avós, é o benefício de ser amado para além das coceiras libidinosa em nossas virilhas, é a companhia permanente nas tristezas e nas conquistas, é a tentativa social heroica de organizar um ambiente seguro e afastado da política estatal, das influências dos modismos culturais, é o dever de criar um berço digno para as próximas gerações.
E veja, não estou romantizando uma instituição que, aos alqueires, desde sempre, nos mostra que nem tudo é tão bonito assim. Mas é aí que está, ao contrário da liberdade egoísta, do contrato de serviços sexuais do Tinder, e da vida perfeita dos casais influencers, o casamento real é maravilhoso justamente porque não é perfeito, mas ainda assim é o único meio de consagração de uma civilização.
"Não se trata de buscar alguém perfeito"
Ele obriga o indivíduo a sair do próprio vão. Ele arranca o homem da autocomplacência e o força a encarar as próprias misérias refletidas no espelho do cotidiano a dois. Não se trata de buscar alguém perfeito, mas de assumir o compromisso de permanecer firme quando a decrepitude física, a escassez material ou as crises da alma baterem à porta.
Odiar essa instituição, aliás, a mim soa como execrar uma velha ponte que nos sustenta há milênios na travessia de um precipício profundo, ela pode não ser como se sonha, nem ter os contornos e medidas bonitas de uma ponte utópica, mas com certeza se não houvesse essa velha ponte embaixo de nossos pés seria muito pior.
Enquanto o namoro moderno se baseia no “estou contigo enquanto for conveniente”, o casamento se funda na gravidade do voto: “Estou contigo apesar de quem você é, e de quem eu possa me tornar”. Sabe o que não é nada comercial dizer? Que o amor não é uma bomba de glicose e nem um rompante de emoção no Instagram. É a arte de permanecer sempre apesar das tentações e propostas para fugir.
"O matrimônio não é a morte do amor, mas a sua passagem da infância para a maturidade" (Pedro Henrique Alves)
Uma sociedade forte não se constrói com indivíduos atomizados flutuando em paixões efêmeras. A família tradicional é o tijolo fundamental da civilização. É no ambiente seguro do matrimônio que a história ganha continuidade, que as tradições são herdadas e que os filhos aprendem o significado do brio, do dever e do sacrifício.
Celebrar o Dia dos Namorados fingindo que o afeto sobrevive sem uma estrutura que o sustente é uma tolice romântica. O amor que não aspira à aliança e ao altar é apenas um ensaio geral que nunca estreia a peça. Quer celebrar mesmo a sua namorada? Peça-a em casamento. O matrimônio não é a morte do amor, mas a sua passagem da infância para a maturidade.
Se há alguma rebeldia possível neste século de liquidez e desmazelo moral, ela não está nas aventuras descompromissadas ou na libertinagem aplaudida pelas elites culturais. A verdadeira contracultura, hoje, é a promessa cumprida, a permanência enquanto todos vão embora. Vestir o terno, calçar os sapatos, subir ao altar de braço dado com a responsabilidade e pronunciar um “sim” que ecoará pelo resto da vida: eis o maior ato de coragem que um homem e uma mulher podem realizar.
Leia também: "Cazarré no campo de reeducação da GloboNews", artigo de Flávio Gordon publicado na Edição 322 da Revista Oeste
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Fonte: Revista Oeste · Por Pedro Henrique Alves