Por Gabriel Carneiro*

Desde muito cedo, uma inquietação permaneceu presente em meu horizonte intelectual e  existencial. Uma pergunta insistente sempre se impôs à minha reflexão: como chegamos  à situação institucional que hoje caracteriza o Brasil? Afinal, a corrupção sempre esteve tão profundamente enraizada em nossa estrutura política e social?

Acompanhei de perto alguns dos principais acontecimentos políticos das últimas décadas.  Assisti ao desenvolvimento da Operação Lava Jato, ao processo de impeachment de  Dilma Rousseff e à ampla cobertura jornalística envolvendo os escândalos do Mensalão  e do Petrolão. Também acompanhei os debates públicos produzidos por articulistas e  comentaristas que, à época, exerceram relevante influência sobre a opinião pública, entre  os quais destaco Olavo de Carvalho, Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo.

Foi, contudo, a partir da leitura da obra de Raymundo Faoro que passei a compreender a  questão sob uma perspectiva mais estrutural. Em Os Donos do Poder, Faoro sustenta que  o Brasil herdou de Portugal uma tradição patrimonialista na qual o Estado não se  consolidou como instrumento da sociedade, mas como patrimônio administrado por um  estamento burocrático que, ao longo dos séculos, aprendeu a sobreviver a impérios,  repúblicas, ditaduras e democracias.

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Embora o conceito tenha origem na sociologia de Max Weber, foi Faoro quem lhe  conferiu contornos propriamente brasileiros. O estamento burocrático não se restringe a  funcionários públicos ou dirigentes políticos. Trata-se de uma camada de poder que ocupa  o aparelho estatal e passa a agir como se a coisa pública lhe pertencesse. O fenômeno,  portanto, transcende a mera defesa de interesses individuais e se converte em uma lógica  de apropriação institucionalizada do Estado.

Nesse contexto, o agente político deixa de distinguir com clareza a esfera pública da esfera privada, comportando-se como se não houvesse qualquer imperativo moral ou jurídico capaz de limitar essa confusão.

O papel do cidadão comum

O cidadão comum tende a interpretar esse fenômeno como um problema exclusivo do  campo político adversário. Há quem considere o patrimonialismo uma patologia própria da esquerda; outros o atribuem exclusivamente à direita. Ambas as leituras são insuficientes, pois ignoram o caráter estrutural do fenômeno.

https://www.youtube.com/watch?v=Uz48pG8WIsY

Tomemos alguns exemplos contemporâneos. Quando a primeira-dama Rosângela Lula da Silva realiza viagens internacionais custeadas pelo erário com ampla aceitação social,  estaríamos diante de uma manifestação patrimonialista? Segundo reportagens divulgadas  pela imprensa, sua presença nos Jogos Olímpicos de Paris gerou despesas significativas  aos cofres públicos. Da mesma forma, a hospedagem do casal presidencial durante visita  oficial à Índia também produziu elevado custo para o Estado brasileiro.

O que caracteriza situações como essas? Não seria a utilização da estrutura pública para  fins que frequentemente se aproximam da esfera privada? 

Para evitar seletividade analítica, é necessário reconhecer que manifestações semelhantes  podem ser observadas em diferentes campos ideológicos. Jair Bolsonaro, por exemplo,  viu quatro de seus filhos ingressarem na atividade política. Três deles possuem formação  superior. Já Jair Renan Bolsonaro construiu inicialmente sua projeção pública como  influenciador digital antes de ingressar na vida política. 

Situações semelhantes podem ser observadas em episódios envolvendo nomeações  partidárias, migrações eleitorais e a permanência de grupos familiares em posições  estratégicas de poder. Qual seria a melhor categoria analítica para compreender tais  fenômenos? Não estaríamos novamente diante de manifestações patrimonialistas?

Mensalão, Petrolão e Master

Os grandes escândalos de corrupção do início dos anos 2000 também podem ser  interpretados sob essa perspectiva. Casos como o Mensalão e o Petrolão revelaram  mecanismos pelos quais agentes políticos negociavam apoio, influência e decisões  estatais mediante benefícios econômicos distribuídos por redes de poder vinculadas ao  próprio aparelho estatal.

Mais recentemente, as controvérsias envolvendo o Banco Master suscitaram novos  questionamentos sobre as relações entre agentes públicos, operadores econômicos e  estruturas de influência. O episódio evidencia como diferentes segmentos do sistema  político, independentemente de posicionamentos ideológicos, podem convergir em torno  de interesses comuns quando inseridos nas mesmas redes de poder.

https://www.youtube.com/watch?v=gaJz-DiY-BQ

A participação de integrantes do sistema jurídico nesse contexto constitui tema que deixo  à reflexão do leitor. Entretanto, uma questão permanece inevitável: quando os diversos  setores do estamento burocrático passam a circular nos mesmos espaços de influência  econômica e política, quem fiscaliza os fiscalizadores? Quem controla aqueles que, em  tese, deveriam controlar o poder?

O patrimonialismo contemporâneo assumiu formas mais sofisticadas. Já não se limita ao  agente do rei, ao coronel local ou ao político profissional tradicional. O fenômeno difundiu-se por toda a engrenagem institucional brasileira, infiltrando-se nos mecanismos  da burocracia, da influência econômica e da tomada de decisões estatais.

Trata-se, contudo, de um processo histórico de longa duração. Não me refiro a um  problema restrito à conjuntura atual, mas a uma característica que acompanha a trajetória  nacional há séculos.

Como a sociedade brasileira reage a essa realidade?

Nesse ponto, considero particularmente útil a metáfora construída por Monteiro Lobato por meio da figura do Jeca Tatu. O personagem simboliza o indivíduo apático, resignado  e distante da vida pública. Representa o cidadão que não participa efetivamente da política  ou que renuncia à possibilidade de influenciar os rumos da coletividade.

Mas quem seria o Jeca contemporâneo? Seria exagero afirmar que parte significativa da  população brasileira ainda reproduz esse padrão de comportamento político?

Os indicadores de leitura e formação intelectual sugerem um quadro preocupante. O  interesse pela vida pública frequentemente ocorre de forma superficial, impulsionado mais por identificação emocional, tribalismo político ou pertencimento grupal do que por reflexão crítica e conhecimento substantivo.

https://www.youtube.com/watch?v=PEWZhl21GmY

As consequências são visíveis. Observa-se, em muitos casos, uma classe política cuja  qualificação intelectual e técnica está aquém da complexidade das funções exercidas.  Legisladores frequentemente demonstram dificuldades elementares de argumentação,  escrita e compreensão institucional, embora sejam responsáveis pela elaboração das  normas que regulam a vida nacional.

Retornando às origens históricas do problema, é necessário examinar o fenômeno do  coronelismo. Inicialmente associado a uma patente militar honorífica, o coronel  transformou-se gradualmente em um centro local de poder político e social.

Sua autoridade derivava da capacidade de oferecer proteção, favores e assistência à  população sob sua influência. Era ele quem intermediava conflitos, fornecia ajuda material e solucionava demandas cotidianas. Em troca, recebia lealdade política e controle eleitoral.

O mecanismo era relativamente simples. O eleitor votava no candidato apoiado pelo  coronel. Uma vez eleito, esse político retribuía mediante nomeações, cargos e privilégios  destinados à família e aos aliados do chefe local. Formava-se, assim, uma aliança  duradoura entre patronato e burocracia estatal. 

Quais foram os efeitos históricos desse arranjo?

Séculos transcorreram, mas diversas famílias que ocuparam posições de destaque durante  o período coronelista continuam exercendo influência significativa na política brasileira. Por que determinados sobrenomes permanecem recorrentes nos centros de poder? Por que algumas famílias conservam protagonismo político durante décadas ou mesmo gerações? E por que parcelas expressivas do eleitorado continuam depositando confiança nesses mesmos grupos? Mas por que o voto frequentemente se transmite de geração em geração sem produzir  transformações sociais substanciais?

A resposta, a meu ver, encontra-se menos nas instituições formais e mais na permanência  de uma cultura política marcada pela dependência, pelo personalismo e pela baixa  participação cívica. 

Nesse sentido, a mentalidade representada pelo Jeca Tatu continua sendo um instrumento  valioso para a perpetuação do poder político tradicional. O povo pouco muda, e muitos já  não demonstram interesse efetivo em alterar essa realidade. O que permanece prioritário é a preservação da burocracia, do patronato e do estamento burocrático.

Somos, em certa medida, uma República dos Urupês: uma sociedade frequentemente  passiva, administrada por estruturas de poder que aprenderam a sobreviver e a se adaptar  às mais diversas formas de regime político. 

Como romper esse ciclo? 

Talvez não seja possível no curto prazo. Talvez o status quo seja excessivamente  confortável para aqueles que dele se beneficiam e suficientemente tolerável para aqueles  que aprenderam a sobreviver em seu interior. Mas talvez qualquer tentativa de transformação profunda seja imediatamente rotulada, por diferentes grupos, como radical, revolucionária ou autoritária. 

Ainda assim, parece-me evidente que mudanças institucionais duradouras dependem,  antes de tudo, de transformações culturais, intelectuais e morais.

Raymundo Faoro observou que os donos do poder raramente desaparecem; eles apenas  mudam de aparência. Talvez a verdadeira tragédia brasileira não resida apenas na  permanência dos estamentos burocráticos, mas na incapacidade da sociedade de  reconhecê-los quando retornam sob novos nomes, novos partidos e novas bandeiras. 

Como registra o apóstolo Paulo de Tarso em Atos 17:28: "Porque nele vivemos, e nos  movemos, e existimos, como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos  também sua geração".


*Gabriel Carneiro é médico formado pela Universidade Cristã da Bolívia. Conservador, comentarista político da Rádio Brado, youtuber e criador de conteúdo histórico e literário.

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Fonte: Revista Oeste · Por Redação Oeste